terça-feira, 21 de outubro de 2014

Precoce

Andava eu a cantar de galo, que a adolescência por estas bandas, até estava a ser de certa forma soft. Bem sei que às vezes me queixava, de uma ou outra coisinha na miúda, mas depois batia logo na boca. Que ainda a procissão vai no adro, e eu não me podia queixar. Uma santa a minha filha, uma santa nestas andanças conturbadas da adolescência. Por hora.
Bem sabia, que o miúdo estava prestes a pisar estes terrenos, tortuosos e possivelmente difíceis. Bem sabia, mas também sabia que isto nos rapazes dá-lhes um bocado mais tarde, o que me daria tempo de me ambientar à questão, e de alguma forma me preparar (alguém se prepara para isto?).
Cantei de galo, cedo de mais. O miúdo ou é precoce, ou está parvo de todo. Feitiozinho de merda, resmungão, a levantar garimpa, armado em engraçadinho, a reclamar das calças, da camisola, e do raio que o parta, agarrado ao telemóvel artilhado com códigos para que nunca alguém se atreva a espreitar quem envia tanta mensagem em tão curto espaço de tempo, a pentear minuciosamente a franja com gel, secador, mais para esquerda, um ligeiro toque para trás "tenho de ir cortar o cabelo", irritado com aquela penugem no lugar do bigode "mãe, arranca-me lá isto com cera", e a fazer um esforço desmedido para tomar as vitaminas que "têm um sabor nojento" mas lhe dão a esperança que o façam dar o tão esperado pulo, e o ponha ao nível dos outros miúdos da sua idade, que está farto de ser o mais baixo da equipa, o mais da turma, e o mais baixo da maioria dos miúdos mais novos que ele uns dois anos.
Por isso, olho para ele, rapazinho pequenino, no cimo dos seus doze anos empertigados e pergunto-me , isto é uma adolescência precoce, só pode ser, não é? 
(espero que sim, porque se for feitio, estou/estamos tramados) 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Futebólódependentes Anónimos

Já tinha percebido que esta coisa do futebol no meu miúdo, é mesmo uma coisa intrínseca, que lhe sai por todos os poros da pele, que o faz feliz, que o anima.  Mas temo que se torne doentio, que se transforme numa obsessão, num vício, e quiçá tenha de ser eu a fundadora dos Futebólódependentes Anónimos. 
Joga em dois escalões, logo, treina em dois escalões. Horas, muitas horas. 
Sábado no escalão infantil, às 8:30 da manhã (repito, sábado: oito e meia da manhã) era suposto ter jogo treino. A equipa adversária não compareceu.
Quando desabafou comigo a injustiça do momento, fez um esforço para que ninguém visse aquelas duas lágrimas  traidoras, fugitivas, a quererem anunciar uma fraqueza/tristeza que a mais ninguém dizia respeito.
Domingo no escalão iniciados, às 9:30 da manhã (repito: domingo: nove e meia da manhã), era suposto ter o seu primeiro jogo para o campeonato. Mas tinha chovido a noite toda, o campo parecia uma plantação de arroz, e para tristeza dele, o arbitro mais não fez que o óbvio e razoável. Cancelou o jogo, adiado para outra núpcias. 
"eu ando a semana toda a acordar e a pensar quantos dias faltam para o fim de semana, para poder jogar, e depois é isto? nem um joguinho? nem um?"
Vais estudar para o teste de Português, disse-lhe, e assim ainda estás mais fresquinho.
Pedi-lhe que fizesse uma composição, "dá-me um tema" diz-me ele. De repente não me ocorre nada, e atiro "uma aventura no bosque encantado", coisa que dá pano para mangas, que é como quem diz, milhões de maneiras de dar asas à imaginação, que é como quem diz, não há desculpas "não me ocorrem ideias", o pão nosso de cada dia.
Aparece-me com uma página e meia escrita, eu penso que o tema foi de facto sugestivo, e leio. O primeiro parágrafo descrevia a sua incursão bosque dentro, e o aparecimento de um esquilo com uma pedra oca na mão. Devia tocar-se seis vezes na dita pedra, para entrar num outro espaço da floresta. Comecei a ficar entusiasmada, um esquilo com uma pedra (oca?), o pormenor dos seis toques, o suspense e a adrenalina perante um novo espaço encantado, já denotava alguma criatividade e imaginação. A coisa ia bem encaminhada.
Ultrapassado o primeiro obstáculo (que é como quem diz, seis ligeiras batidas numa pedra oca), eis que entramos num novo espaço geográfico. Um novo recanto da floresta, onde se avistava um belo campo de futebol. Novo obstáculo (embora não saibamos o objectivo do mesmo), uma partida de futebol entre a equipa dos batoteiros e ele (que depressa arranja uns comparsas para formar uma equipa, embora não saibamos se são outros humanos transeuntes como ele, ou um grupo de animais encantados - e não sabemos, porque esta descrição se faz em apenas uma linha). Todos os outros parágrafos são a descrição pormenorizada de um emocionante jogo de futebol. Com direito a minutos de jogo e tudo. A história termina da forma mais emocionante e heróica possível, quando ao minuto noventa mais três (atente-se ao pormenor 90+3 - significando que estávamos já em fase de descontos) com o jogo empatado, ele, ele mesmo, marca um belíssimo golo (com a descrição exacta de como o fez, incluso efeito da bola), terminando o jogo com uma vitória e um espectáculo nunca antes visto na floresta.
Corrijo os erros ortográficos (bolas, que este miúdo tem de ler mais), e peço-lhe que faça um convite, coisa que andam a treinar em aula. Pergunta-me o tema, atiro "convida alguém para o teu casamento". Torce-me o nariz, três minutos depois apresenta-me o resultado. "Exmo. Sr. Jorge Jesus, gostaria de o convidar para uma partida de futebol ..."
Penso pedir-lhe uma crónica. Desisto. Não me apetece ler a crónica daquele jogo, entre a equipa do Jorge Jesus e a dele. Digo-lhe, podes fazer uma pausa. Boa, diz ele, agarra numa bola e corre com ela nos pés.  

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Plausível;Acreditável;Credível

A minha miúda está no 10º ano.
Um destes dias, o professor de filosofia (disciplina que têm pela primeira vez na vida), perguntou numa aula se sabiam o significado da palavra "plausível".
Um dos colegas da minha filha respondeu "acreditável".
Perante esta resposta, o professor soltou uma gargalhada, dirigiu-se em passo apressado à sua secretária, puxou de um bloco onde escreveu a palavra proferida pelo aluno, e a sorrir justificou a acção:
"isso não existe. e não me leves a mal, mas eu estou a escrever um livro com as gralhas que os alunos dizem. tudo anónimo, ninguém vai saber que foste tu".
O miúdo, não sei se corou (se fosse a minha, corava na certa, que nem um tomate maduro e seria motivo para estar desconcentrada o resto da aula, a pensar no assunto), e nesse instante, outro aluno resolve atirar "credível". 
O professor olhando para o miúdo do "acreditável", diz "era isto que querias dizer, não era?"

Errar é humano. Os professores também erram. 
Para este professor não saber a existência da palavra em questão, não me parece credível, mas... dou-lhe o benefício da dúvida. O que já não me parece plausível, é este professor estar a escrever um livro acerca das gralhas que os alunos proferem em aula, sendo que, não estamos a falar de criancinhas do pré escolar em que a "coisa" até podia ter a sua graça. Estamos a falar  de alunos do secundário, entre os quinze e os dezoito anos no mínimo. Um professor deitar abaixo a confiança e auto estima de um aluno, perante o olhar de uma turma, é que não me parece de todo acreditável. Principalmente, quando a maior "gralha" foi a dele. 

Assim, espero que o referido aluno, tenha já elucidado o referido professor acerca  da referida palavra, sendo que, apesar de não ser (exactamente) o sinónimo pretendido, existe.

a·cre·di·tá·vel 
adjectivo de dois géneros
Que pode ser acreditado.


"acreditavel", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/acreditavel [consultado em 14-10-2014].

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um quadradão do pior #1

Ainda a propósito do meu filho ser um quadradão do pior,
num jantar em nossa casa, com uma pessoa que nos visitava pela primeira vez:

O convidado a referir-se à minha pessoa: "Devias ter sido  decoradora de interiores"
O meu filho a dirigir-se ao convidado com os olhos quase a saltar das órbitas: "O quê? Aquelas pessoas que ajudam os outros a escolher cuecas e lingerie? Nem pensar!"

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Instagramizada

Já aqui tinha dito, que criei o meu facebook, por altura em que cedi à criação do da miúda. Para controlar e bisbilhotar e perceber o funcionamento da "coisa", e tal. Dois anos volvidos, estava já eu "batida" na questão, o miúdo também criou o seu. Tudo mais ou menos controlado.
Acontece que, o facebook passou a ser uma coisa de "pessoal mais velho" para não me dizerem cotas, com certeza., que levavam logo uma galheta.
Agora estamos na onda "instagram". Andei algum tempo a anunciar que também ia criar um, não que me apetecesse, que me fizesse falta, mas essencialmente pela mesma razão com que criei o face.
Cada vez que falava na questão ouvia logo um "mas 'pra quê?", vindo na maioria das vezes da parte do miúdo, que ás vezes parece saído do século passado (bem no início do século passado), um quadradão do pior.
Deu-me na mona, e criei o meu. A miúda veio, prontamente ajudar na instalação, deu dicas, mostrou-me o dela. O miúdo fez ar de rezingão, rezingou, e ainda me perguntou se eu andava com a mania que era fixe.
Publiquei umas quantas fotos, tornei-me seguidora de umas quantas pessoas, deixei-me seguir por outras tantas. Até aqui tudo bem. Dias volvidos, descobri que existem regras. Passos que não devo dar, sob pena de ver a minha pessoa assim a modos que enxovalhada,  neste mundo do "insta".

Assim,
Dicas e regras dela:
Nunca publicar mais do que uma foto por dia, para que não pensem que estou desesperada ( WTF ! desesperada? mas desesperada porquê ? bem, assim com'á assim, não publico, que desesperada não estou, a não ser por mais uns trocos na carteira, e isso o insta, ainda não prometeu pagar-me por publicar o que quer que seja) 

Não colocar gostos em tudo o que vejo, para que não pensem que estou desesperada (outra vez?)

Colocar o meu perfil privado, para que só me siga, quem eu aceito (desta gostei. sinal que eles aprenderam as regras que lhes incuti no face, embora aposte que  não conhecem de verdade, todos os seguidores que têm)

Não fazer comentários ridículos em fotos deles (entenda-se meus filhos. bom, isso ás vezes é relativo. o que para mim não é nada ridículo, é muitas vezes para eles ridiculíssimo, mas, prometo tentar. palavra de escuteira que nunca fui)

Não publicar fotos deles, sem o seu consentimento ("oh mãe, tira essa foto! 'tou nojenta/o!" - bom, também nunca lhes disse que uma mãe instagramizada, tem de cumprir todas as regras dos filhos, pois não?)

Dicas e regras dele:
Uma mãe, nunca devia ter Instagram (é um filho azarado, coitado)

Uma mãe não devia ter a mania que é fixe, e armar-se em adolescente, e criar Instagram (este filho é meu?)

Uma mãe, além de não poder usar decotes(ainda que discretos), mini-saia, ou qualquer indumentária que denuncie as suas formas, também não devia poder usar um integram (juro, que não sei a quem saiu. juro)

Uma mãe, não devia ter seguidores (mas tem. poucos, mas tem)

Uma mãe, devia limitar-se única e exclusivamente ao papel de mãe (o que para esta mãe, implica seguir os seus filhos nas redes sociais...)

Pronto, ficam as regras para as mães que se quiserem instagrar, ou instagramizar, ou o raio. Essas malucas, doidivanas, e armadas em miúdas, como eu.




Profecias

Já a minha mãe dizia  (e eu que sempre fui teimosa o suficiente para dar ouvidos à senhora minha mãe a minha filha que não leia isto ) "quando se avaria uma coisa, avariam-se logo duas ou três". Não sei de onde vem o presságio, a superstição, ou o raio, mas  desde que estou "por conta própria", tenho verificado que o lema se comprova. Assim, de cada vez que se avaria qualquer coisa, fico logo com o coração nas mãos e a pensar na avaria subsequente espero que não seja uma coisa pesada/pesada nos dois sentidos.
A máquina de secar avariou. Dei conta, assim que começou a chover a potes e  me vi com os estendais cheios, de cagulo. Benditos cinquenta euros para a extensão de garantia. Tinham passado três meses dos dois anos de vida, e consequentemente da garantia obrigatória. Talvez pela alegria dos cinquenta euros mais bem gastos dos últimos anos, não pensei na profecia. Este arranjo não me iria sair do bolso.
Mas, comecei a ouvir uns ruídos estranhos, vindos da minha casa de banho. Eu estava sozinha em casa, e fui aprofundar a questão. O autoclismo estava a ganhar vida própria. Olhei e ouvi com atenção. Estava a perder água. E a porra do autoclismo está escondido numa parede. Modernices. Esteticamente, o máximo, mas e agora como é que se evitam litradas de água sanita abaixo e uma conta exorbitante, até que venha um canalizador? A falta que faz um homem numa casa, que o miúdo não conta ainda, chama-se o cunhado, não para arranjar, que ele até é jeitoso( "mas com o autoclismo embutido, não sei como se faz"), mas para descobrir a torneira de segurança que eu não a avisto em lado nenhum. Penso, tenho de arranjar um canalizador.
Ante ontem, avariou a prancha do cabelo. Foi a miúda quem deu o sinal de manhã ("mãeeeee, a prancha não liga, como é que eu vou com o cabelo cheio de altos para a escola????).
Balbucio umas asneiras entre dentes, minto e digo-lhe que o cabelo está perfeito, saímos de casa e penso, tenho de comprar uma prancha nova. Também me faz muita falta.
Ontem, avariou-se o secador de cabelo. Foi a miúda quem deu o sinal à noite (mãeeeee, avariou-se o secador! Como é que eu vou com o cabelo molhado para a cama????).
Enquanto preparo o jantar, balbucio umas asneiras entre dentes, penso no raio da profecia e da superstição, faço contas às avarias (quatro? bolas, não era suposto serem  só três?), e digo-lhe para ir secar o cabelo à casa da vizinha. Penso, também tenho de comprar um secador.
Hoje de manhã, o miúdo chegou à casa de banho, onde tinha colocado o seu telemóvel a carregar na noite anterior e disse : "mãeeee! a prancha e o secador não estão avariados! esta tomada é que pifou! o meu telemóvel não carregou!"
Pronto, afinal temos homem nesta casa. Ainda que pequenino, perspicaz.
Penso, mandar arranjar a máquina de secar, mandar vir um canalizador, mandar vir um eletricista.
E são três.
Profecia comprovada.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se, e se...

Já lá vão quinze dias de aulas. Os ritmos chegam lentos, a metereologia baralha os sentidos. O inicio do ano escolar foi marcado com chuvas e com  cheiro a outono, esta semana sabe-nos a verão. O regresso das aulas ontem, foi brindado com uns banhos de piscina, os trabalhos de casa ficaram na gaveta até o pós jantar. A hora de deitar ainda se estende até muito depois da hora marcada, a hora de acordar, essa, continua obrigatoriamente a mesma. 
Um novo ciclo para os dois, embora o espaço continue o mesmo. A miúda, ansiosa por uma liberdade aparente queria ter dado inicio ao secundário numa outra escola. A mãe, preocupada com esta caminhada, deixou-a ficar no mesmo colégio. O investimento foi largo, e muito, durante os últimos nove anos, e agora, agora sim, vai contar, as médias, as notas, faz-se mais um sacrifício, a miúda fica, até ver. A miúda conforma-se, aceita, reconhece que é talvez o melhor, são os ses, que nunca sabemos, fica no colégio, pede apenas para almoçar fora.
A mãe, que há anos faz duas marmitas, calcula o custo, reconhece que o atravessar uma estrada para comer fora, lhe dá o falso estatuto de menina crescida que pode sair do colégio, concorda e até se despacha mais cedo, com apenas uma marmita para preparar de manhã. 
A miúda chega a casa todos os dias, elogia a maravilha de pratos de come no restaurante ("mas posso não comer a sopa?), mas acrescenta que a comida da mãe é mil vezes melhor, e que é agora que percebe, o quão boa cozinheira a mãe é ("mas posso não comer a sopa?").
A mãe sente-se orgulhosa desta filha, que sabe reconhecer ("a sopa tens de comer"), que sabe aceitar ("só uma concha, mas tens de comer"), e que ainda ouve uma mãe, que faz o que acha melhor, muito embora existam sempre os "ses" e as dúvidas se assim é.