sábado, 30 de abril de 2016

Porque eu mereço

Presente (adiantado) do dia da mãe.
Constato que o miúdo pode ter futuro como carpinteiro ou pintor. Já eletricista será melhor não arriscar (o quadro da luz sucumbiu ao primeiro impacto - quiçá com tamanha magnificente obra de arte). Surge agora a dúvida  (até pouco pertinente, entenda-se): sabendo à priori que se encaixa em qualquer  projecto decorativo, ainda não decidi onde colocar...
Ainda assim, e sabendo que o candeeiro é meu, o quarto do projectista parece-me o local mais indicado...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Desenrascado #1

Estávamos em pleno agosto. Um calor do caraças.
Ele aninhou-se comigo no sofá, "bora ver um filme".
Não sei quem adormeceu primeiro, nunca sei. Acordei, puxei-o por um braço, e encaminhei-o para a cama. Mãos nos ombros, e vou-lhe guiando o caminho, enquanto ele murmura umas quantas frases sem sentido. Apesar de ser pequeno para a idade, longe vão os tempos em que o carregava ao colo, aninhado nos meus braços. Ainda que também, desnorteada pelo sono, consegui ver-lhe as calças de pijama, de flanela, aquilo que me pareceu, arregaçadas até ao joelho. Ainda que tonta de sono, pensei "que parvoíce a deste miúdo, umas calças de flanela, em pleno verão...".

No dia seguinte de manhã, quando me apareceu, despenteado e a bocejar, já eu, bem acordada, vi a imagem do Tom Sawyer à minha frente. Antes que eu pudesse articular uma palavra, e perante o meu olhar incrédulo, ele justificou de imediato:

"Oh mãe, não tenho culpa! Não tinha nenhuns calções de pijama na gaveta, e estava muito calor para vestir calças!"



( ninguém o pode acusar de não ser desenrascado...)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Sigo. caminhando.

A um trabalho, acumulei outro. Subtraí o tempo e a constatação de que nada sobra. Mas sigo, caminhando, com a mesma força (ou gosto de pensar que sim) e mais algum entusiasmo (quase sempre, assim). 
Consegui arranjar meia hora para dar cabo de metade do meu cabelo. Não lamentei as décadas de cabelo comprido, e estou mais leve. 
Os miúdos vão gerindo a vida académica um pouco à sua maneira, sem que eu pressione (tanto) ou saiba com precisão as datas dos testes  (vou sabendo, assim de uma forma mais geral), e a coisa não tem corrido mal (à parte aquela negativa a matemática do miúdo). 
O diretor de turma dele, diz que ele se queixou de que dou mais atenção à irmã. A irmã queixa-se (cheia de razão), de que perco demasiado tempo fora de casa, só para o levar/buscar ao futebol. 
O carro pede pastilhas e revisão (entupido de razão). São cerca de cem, os quilómetros diários.
Eu não peço nada (quase). Não me queixo de nada (quase). 
Só à noite, quando me deito, e converso com Ele. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Foi hoje

Voltámos à rotina. 
Com ela, a constatação de vários dramas, que se abateram sob as cabeças adolescentes desta casa. 
Ela, que se apercebeu hoje, logo hoje, primeiro dia de aulas, que não tem nada para vestir. O horror, o descalabro. Disse-lhe que sim, que tinha razão, evitando parecer mais irónica do que o que estava a ser na realidade, porque no fundo, é um drama que reconheço ser comum a ambas. 
Ele acordou, olhou-me ensonado e disse "estou muito preocupado". Perguntei porquê, embora sem grande entusiasmo, a primeira meia hora da manhã, todos sabem, não sou dada a grandes diálogos. Afinal, está só preocupado com o oitavo ano. Menos mal. 
Enquanto partilhávamos todos a minha casa de banho (rotina a que já não estava habituada, vá-se lá perceber porque é que não se distribuem pelas outras duas, e andamos ali os três a discutir dois lavatórios), e ele transformava a franja numa ostensiva pôpa, rematou:
"parece-me que vou entrar em depressão. esta vida não foi feita para mim". 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

De rotinas. Precisa-se.

De escola. Precisa-se.
Está a fazer-lhes uma falta danada. Eles não sabem. Mas eu sei. Eles acham que não . Eu tenho a certeza que sim . 
Não há razões de queixa das férias. Ninguém se queixa. Nem eu, muito menos eles. Algarve e Sesimbra comigo. Porto com o pai. Ele novamente Algarve com amigos. Ela com as amigas ainda foi à comporta, a Alenquer e a Londres. Mas agora estão em casa. E não há quem os ature. Ele tem desafiado a construção da nossa casa. É das boas. Um bom investimento, tenho atestado. Os constantes remates às paredes, e nem uma lasca na tinta, ou um bocado de estuque ao chão. Tem sido um desafio também à paciência da vizinhança que ainda não se queixou.
Ela esgotou todas as temporadas da anatomia de grey, que resolveu ver desde os tempos primórdios, num daqueles sites manhosos ( ilegais) com legendas em português brasileiro, do pior que pode haver. Tem sido um teste ao pobre computador, que ao fim de umas horas bufa por todos os orifícios, a anunciar o cansaço através de uma barulhenta ventoinha. 
E depois há o teste à minha paciência , com as constantes guerrilhas entre eles, quem acabou com a nutella,  "que ainda ontem havia um frasco quase cheio", de quem é a vez de ir com o cão à rua, "que não posso ser eu, que já fui mais vezes e isto assim é uma injustiça", quem é que deixou aquele copo na sala "não fui eu" " nem eu" e não foi ninguém, de quem é a vez de pôr a mesa "ontem fui eu!" " tás-te a passar? Fui eu !", e que ela está farta do mau feitio dele, e que ele está farto  daquele feitiozinho dela, e se as férias não acabam, ainda vislumbro pancadaria  na certa. 
E eles estão fartos de mim, e da minha mania das arrumações e limpezas ( não é uma mania, já disse), e do meu feitio autoritário ( de mãe ), e das minhas queixas com os horários desconcertados deles ( e é a razão pela qual sou a única a não conseguir ver o filme da noite até ao fim, outra queixa deles ), e do cão não ser minha responsabilidade ( apesar de o passeio nocturno ser maioritariamente meu, porque eu ladro, mas não mordo). 
Na verdade, estamos mesmo a precisar das rotinas. De escola, de dança, futebol e natação, de energias gastas, para daqui a dois meses nos estarmos a queixar delas, e a ansiar por novas férias.

Estou cá.

Provavelmente nem vale a pena explicar a ausência.
Até porque na verdade, nem há razão plausível a explicar.

Entro assim de fininho, como se nada fosse, como se quase dois meses não tivessem passado, e retomo o fio à meada.
Estou cá. Não sei se para ficar, mas estou.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Nesta, ou noutra vida


-Um dia vamos ?
-Sim. Um dia.
-Juntos?
-Sim. Juntos.
-Um dia, quando?
-Não sei. Um dia.
-Nesta, ou noutra vida?
-Talvez nesta. Talvez noutra.
-Sim... Noutra, talvez.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Férias atribuladas

"Vamos de férias", digo-lhe . Assim que as aulas terminem . Só nós, e os miúdos. E amigos dos miúdos . Dois carros cheios. 
A primeira semana só de mulheres . Eu , ela, a minha filha, as duas dela . E duas amigas. À segunda  semana juntamos mais dois. O meu e um amigo. Quatro são nossos . Os meus dois. As duas dela . Os três restantes são amigos. Sete miúdos, para duas. Fácil . 
Dia 1- uma das amigas, com um febrão brutal. Vá de brufen. 
Dia 2- sou picada na praia por uma vespa. Sacana da filha de um ganda vespão, que aquilo doi como tudo.
Dia 3 - a garganta da amiga evidência uma amigdalite jeitosa. Uma ida ao hospital e um antibiótico prescrito. Uma das filhas da minha amiga fica com febre. 
Dia 4- resguardam-se as doentes, ora em casa, ora debaixo do chapéu de sol ( felizmente um valente chapéu, tamanho xl).
Dia 5- a minha filha é picada por um peixe aranha. Não a via chorar assim desde que era bebê . O nadador salvador já me conhece, desde a picada da vespa, e trata dela com muito jeitinho ( todas as outras amigas, quase desejam  uma picada semelhante, já que o rapaz é giro como tudo ).
Dia 6- a amigdalite da amiga piora consideravelmente, nova ida ao hospital, novo antibiótico. Uma "bomba" de uma toma só, e a promessa da recuperação em dois dias. A miúda não aguenta aquilo no estômago e vomita um bocado. Tentamos avaliar o tamanho do " bocado", e rezamos para que o restante surta efeito. 
Dia 7- a outra amiga, acorda sem conseguir abrir os olhos. Inchados. Muito inchados. Sem razão aparente. Fazemos uma consulta via telefone com um médico amigo. Fica resguardada do sol. 
Dia 8- a outra filha da minha amiga acorda com febre. 

Dos nove intervenientes destas férias, .  há três a quem ainda não lhes " tocou" nada. Mas calma, que ainda temos quatro dias pela frente ...

sábado, 20 de junho de 2015

Descanso

Olho à minha volta . Olhos semi cerrados, o sol aflige-me. Tento habituar-me à claridade -  não posso estar sempre de óculos escuros, que já consigo visualizar as marcas do sol, a face bronzeada , a pele circundante aos olhos, mais esbranquiçada. Olho à minha volta . Vejo grávidas . Muitas grávidas . Mulheres prenhas, exibindo barrigas imponentes e umbigos prestes a explodir . E muitas mães. Já efectivas, com filhos cá fora, bebês pequenos, crianças pequenas, crianças crescidas. Lembro-me da notícia que li ontem, assim na diagonal, de que as estatísticas indicam que o nosso país está cada vez mais velho. Por cada cento e quarenta idosos, cem crianças. Este país não pode estar velho. Esta praia não é de velhos. Até onde a minha vista alcança não consigo vislumbrar nenhum, embora saiba que aos olhos dos meus filhos se encontram dezenas. 
O sol escalda-me, e olho para as miúdas. Levanto-me em preguiça, e dou uma esguichadela de spray nas costas de cada uma . Estão alinhadas, as cinco - quais frangos na grelha de um churrasco. Espalho o protector deixando resticios de creme branco sem que se apercebam. Sei que não gostam, mas ao comentário da minha ( " nunca me lembro de seres tão chata com o protector" ) respondo com as estatísticas de cancro de pele cada vez mais altas. As estatísticas. Sempre as estatísticas. Volto a deitar-me em preguiça . Uns metros à frente, um casal com duas crianças. Não descansam em preguiça, e olho-lhes os movimentos. A mãe emborca um biberon de leite na boca do bebê, enquanto o pai muda a fralda cueca do mais velho. Fralda mudada , sentados debaixo do chapéu, o pai abre o jornal depois de dar uns brinquedos ao filho. Pensa " entretém-te aí um bocado" - imagino. A criança não se entretém, num ápice abandona a sombra. A mãe, empunha o bebê ao colo, dando-lhe pancadinhas nas costas. Intervalado com as pancadinhas, com um só braço, pega numa lancheira que entrega ao marido, olhos postos no jornal. " o Afonso, o Manel, o Gonçalo, ou quiça o Zé Maria, tem fome " - imagino que lhe diga. O pai dobra o jornal, mal dobrado, páginas desalinhadas e já cheias de areia, pega no Afonso, no Manel, no Gonçalo ou quiça no Zé Maria, senta-o de novo à sombra, e articula colheradas de iogurte pela boca do filho. Uma mão de areia furtuita apimenta o iogurte - os ânimos. O pai zanga-se, levanta-se, procura qualquer coisa no saco gigante que imagino que carregou a custo, e enfia o iogurte inacabado num saco de plástico. A mãe deita o bebê no colo, depois de um arroto imponente - quase que o consegui ouvir. 
O pai desdobra o jornal, tenta alinhá-lo, as folhas estão tesas do sol, não se alinham . O miúdo chora, levanta-se, o pai ralha, a mãe faz pchiu, o miúdo quer ir chapinhar no mar, o bebê quer dormir - imagino. 
O pai olha na minha direção, baixo a cabeça. O sol escalda-me as costas,  desafio as miúdas para um mergulho. Enquanto me levanto, vejo as folhas do jornal, cada vez mais desalinhadas, o pai gesticula um qualquer ralhete ao miúdo, o bebê esperneia com calor - imagino. 
A mãe está impaciente, agarra no jornal, agora transformado em dois, enfia-o no saco gigante com algum vigor, o pai arranca em passo acelerado com o Afonso, o Manel, o Gonçalo, quiça o Zé Maria de braçado, em direção à água. 
A mãe, uma rapariga para a minha idade - penso se devo deixar de dizer "rapariga", de cada vez que me lembro de ouvir o meu avô " vou jogar às cartas com os rapazes ". Um dia, estranhando a disponibilidade daqueles rapazes da minha imaginação, para jogarem às cartas com um homem de quase nove décadas completas, perguntei quantos anos tinham os rapazes. " são todos rapazes aí para a minha idade" respondeu-me - de barriga ainda proeminente de um parto recente, ajeita melhor o bebê na sombra, deita-se a seu lado, vai descansar um pouco - adivinho-lhe o cansaço, enquanto  caminho para o mar. 
O descanso é breve, quase instantâneo. O pai cruza-se comigo, o Salvador - ouço-o agora, enquanto reclama com o filho, as mãos cheias de areia nos olhos - chora, aflito, e pede a mãe. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Duplamente orgulhosa

O miúdo liga-me " mãe , tenho excelentes notícias !" . Adivinho-lhe no entusiasmo, as notas escolares . Os olhos enchem-se-me de lágrimas. Não só porque me emociono por dá cá aquela palha, não só porque as notas foram melhores do que o previsto, mas porque estou de férias com a miúda, sem ele, porque ele assim o desejou, e porque cedi à sua vontade, e porque me custa. 
Dou-lhe os parabéns com a voz embargada, e aproveito para o relembrar que apesar de ter tido apenas dois " três "o resultado poderia ter sido melhor, e que para o ano terá de se esforçar mais. Sou uma pica miolos, mas com ele tenho de ser pica miolos quase a tempo inteiro. Diz-me que teve tudo o resto " quatro" e nota cinco e educação física e educação visual. Dá uma gargalhada. Gargalho com ele. Nota máxima a educação visual  é no mínimo ridículo, ele que não tem jeitinho nenhum para aquilo. Ele que tem sempre os trabalhos em atraso. Ele que tem um traços ao nível de um miúdo da primária. Mas o professor organiza um torneio de futebol inter turmas, e nessa organização ele deve ter sido talvez o mais interessado em colaborar. Oiço-o feliz, e penso que este miúdo tem sorte, porque é assim, meio desleixado, meio esquecido, meio aplicado, meio falador, meio distraído ( ou muito, tudo ), mas tem uma capacidade natural de cativar as pessoas. 
De seguida, recebo sem surpresa as notas da miúda. Ela que se empenhou, esforçou e trabalhou muito. A média de quinze não é brilhante, principalmente para quem não sabe ainda o que seguir concretamente ( embora continue a ambicionar algo na área da saúde ), mas é o suficiente para me deixar orgulhosa porque foi conseguida com esforço e dedicação. 
A minha amiga, que está de férias comigo, também recebe as boas novas, sem surpresa. As duas filhas, na mesma turma dos meus, no topo da lista como melhores alunas. 
" vamos comemorar" diz-me. 
Ainda que sem o miúdo, mas com as miúdas e as amigas delas que 
trouxemos, saímos para o brinde. Duplamente orgulhosas. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Voltei, voltei

Andei arredada daqui . 
Pela falta de tempo , ou porque simplesmente , não me apetecia . Às vezes sou assim . Arredo -me de certas coisas , mesmo daquelas que gosto , porque preciso , porque tenho essa necessidade . Depois regresso , como se nada fosse , como se tempo algum tivesse passado , desse arredo natural e propositado . Volto , porque lhe sinto a falta , ou tão só , porque me apetece . 
Hoje , voltei.
Porque me apeteceu , e porque senti falta . 
E escrevi palavras soltas , aquelas que me apeteceram no momento , através das curtas teclas do ecrã do meu telemóvel ( isto não são teclas , é apenas um vidro táctil ), e depois irritei-me , porque me irritam as tecnologias , e não conseguia alinhar o texto, e não conseguia alterar o tipo de letra ( embiquei com o arial, como quem embica com um único par de jeans, apesar das dezenas que permanecem renegadas no roupeiro porque não caem tão bem , quanto aquelas ), e não conseguia anexar uma foto, e logo agora , que de férias, uma pessoa até podia postar umas paisagens jeitosas ( que fica sempre bem ).
E depois das curtas palavras , que fui despejando ao acaso , senti falta de visitar todos os reinos vizinhos que visito regularmente . Senti falta da Uva, que às vezes me dá as notícias do dia , mesmo antes de as ver noutros meios de comunicação social , senti falta das incursões ao supermercado da Linda Porca , senti falta das frases poéticas da Maria Eu, senti falta da L das horas e de saber como está, da Sci, da Alice, da São e de saber o que anda por aí a experimentar, das Ninas, da Gaja Maria e suas pedaladas , da avó Gi, da Vania, e de tantos outros reinos, que acompanho como se fôssemos amigos , ainda que não lhes conheça a cara, ainda que tenha levado anos , relutante em relação a este mundo, que é o virtual ( passinhos pequenos , na tecnologia que tanto me irrita ). 
Depois tentei. Bem ditos três euros para passar os míseros duzentos megas a um fantástico giga, e vamos a isto - pensei. Depois a rede não é fantástica. E uma pessoa fica a olhar para a linha no topo do ecrã, enquanto o sol lhe escalda as costas. E a linha chega ao fim . E uma pessoa tenta ler, e amplia o ecrã , não que tenha falta de vista , que isso já me avisaram que é a partir dos quarenta , e os meus são ainda frescos como uma alface ( embora pensando bem , daqui a nada já vou no enta e um, que os meses passam a correr, e já lá vai meio ano, desde essa entrada na ternura dos entas), mas porque o ecrã é efectivamente pequeno, porque o sol é efectivamente ofuscante, porque a net voltou a ficar lenta, e porque , afinal de contas estou na praia e não se pode exigir mais. Então desisti. Agarrei no livro , aquele em papel, tecnologia do antigamente , e debrucei-me sob ele, deixando os reinos vizinhos para o meu regresso. Que é daqui a quinze dias.  E passa num abrir e fechar de olhos, que o que é bom, acaba-se depressa. 
Agora chega. Vou ali dar um mergulho para comemorar os meus passinhos pequenos na tecnologia. É que no entretanto , além de escrever um post via telemovel  , também já descobri como postar fotos . Um viva para mim . 

Não é para meter inveja , mas estou mesmo é de férias

Esta rainha estava cansada.
Cansada da época de testes escolares dos miúdos , da miúda fechada no seu casulo, a dar o litro nesta recta final, do miúdo a fazer tudo , menos fechar-se no seu casulo, a dar meio decilitro nesta recta final. Das minhas tentativas ( tantas vezes goradas) de o fazer ver que um último esforço valia a pena , que a vida se faz de esforço , de empenho , e não só no futebol.
Esta rainha estava cansada de se desdobrar entre idas a dois campos de treinos, à escola de dança , ao inglês , ao supermercado , do pó, do aspirador , do ferro, da roupa que está seca há três dias, que ninguém apanhou e que está tesa que nem carapau ( um carapau seco e teso entenda-se) . Esta rainha estava cansada de tachos e panelas , e de pensar na ementa do hoje e no menu de amanhã, e no que tinha ficado por fazer no escritório , para o dia seguinte.
Vai daí, esta rainha cansada encheu o carro de mantimentos e de miúdas , e embarcou numas ferias . O miúdo ficou para um último torneio de futebol , e há-de chegar nos próximos dias. As notas , essas , conquistadas com esforço, barra, pouco esforço , hão de chegar lá mais para o fim do dia , via sms. Esta rainha estava cansada , e recupera agora na areia de uma praia.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Conselho do dia (vale o que vale)

Dos meus arrumadores de carros de há anos, a quem confio o carro todo o dia,  sei um pouco da história de cada um. São três. E as histórias são idênticas. Estiveram os três presos. Mais do que uma vez. Uns, mais anos do que outros. Dois deles em lisboa. Um deles experimentou uma prisão em Itália. Todos, pelas mesmas razões. Roubo, tráfico. Dois deles foram toxicodependentes "oh Dona, eu agora é só ganzas. Drogas duras já não.". O outro, nunca foi dependente "oh Dona, então se eu vi a minha mãe morrer com a idade que eu tenho hoje, trinta e um anos, com um cancro pelo corpo todo, mas agarrada às drogas, acha que eu ia meter-me nisso?". Dois deles têm duas filhas, o outro não experienciou ainda a paternidade. Vivem todos na rua há anos. Muitos anos. Todos tiveram pais dependentes (álcool e drogas), todos sofreram violência física por parte dos mesmos.
Um deles hoje, queixava-se dos pais, da negligência que tiveram perante uma serie de filhos, da violência do pai bêbado, e de nunca ter conhecido os padrinhos. Todos tinham padrinhos, menos ele. E isso, ele não perdoava.
 
- Oh Dona, se eu tivesse tido padrinhos, podia ser que eles me dessem conselhos, que me tivessem orientado para a vida. Conselhos. Às vezes é bom ouvir conselhos. Por exemplo, chateei-me ali com o Zé - um dos outros arrumadores - porque muitas vezes que lhe peço conselhos, e ele só me diz para ler um livro. E não é esse conselho que eu preciso de ouvir. Então agora vou enfiar a cabeça num livro?
 
Perguntei-lhe se tem visto as filhas.
 
- Não Dona. A mais velha que tem dez anitos, nunca a vejo. Porque vive ali para os lados da Amadora.
- Da Amadora? Então, mas a Amadora é já aqui ao lado...
- Pois Dona, mas há outras coisas... A mãe dela também não deixa, e quando eu ligo, só me pede dinheiro. - Mostra-me a fotografia da filha.
- É linda - digo-lhe - Então e a outra?
- A outra vejo-a quando me apetece, e ligo-lhe de vez em quando. Mas por exemplo, ainda ontem lhe liguei, para irmos àquela loja da Primark, no Colombo, sabe? E ela disse-me que preferia ir ao Vasco da Gama ao MacDonald's. Eu disse-lhe que não. Então tinha que a ir buscar lá abaixo, depois ir para a Expo, e depois vir outra vez? Não dava! - Mostra-me a fotografia da mais pequena.
- É linda. Mas olha, devias fazer por ver as tuas filhas mais vezes. Faz um esforço. Pensa assim: se és tão revoltado por achares que os teus pais não te deram conselhos, por não teres tido padrinhos para te darem conselhos, pensa que um dia mais tarde, as tuas filhas podem vir a ser revoltadas por terem tido um pai ausente, que não lhes deu conselhos. Pensa que se tu precisavas disso, ela também irão precisar. E ainda vais a tempo.
- Oh Dona, 'tá a ver? Isso é um bom conselho. Isso é um conselho que eu aceito de bom grado.
- Pronto, isto é o conselho do dia. Vê o que é que fazes com ele. Outro dia, há mais.
- Obrigado Dona. A sério. Obrigado.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Expropriada

Somos quatro. Eu, a miúda, o miúdo, o cão.
Cada um tem o seu quarto (sendo que o cão, ficou confinado à cozinha, na hora da deita).
Temos três casas de banho. A social (que me irrita solenemente quando vejo que o miúdo a usou - e é tão evidente que foi ele, apesar de esbracejar e jurar a pés juntos que não foi), a minha, e a deles (sendo que o cão tem o privilégio de usar uma casa de banho imensa em cada arbusto por onde passa).

O miúdo usa a casa de banho deles (e por vezes a sanita social), a miúda só usufrui da banheira. Tudo o resto, usa na minha, que o lavatório é maior (um para cada uma), e a panóplia de cremes e maquilhagem que é minha, passa a ser nossa. 
Temos cinco escovas de cabelo. O que por si só, seria mais do que suficiente, dado que o cão tem a dele (e que ninguém discute a partilha), cada um dos miúdos a sua (sendo que na minha perspectiva, o miúdo até com os dedos se safava), e eu tenho duas (sendo que uma, apesar de me ter custado os olhos da cara, não penteia nada, uma vez que é própria para extensões, um devaneio meu, há milhares de anos atrás, quando decidi cortar a minha linda cabeleira comprida  pelos ombros e me arrependi no segundo seguinte).

Acontece que, na nossa rotina matinal, há um momento em que estamos todos a dar os últimos retoques na casa de banho. E é nessa altura que andamos esbaforidos à procura DA escova de cabelo. Que mais não é, do que a MINHA. E eu reclamo, que com tanta escova, todos enbicaram com a minha, e eles reclamam que de todas, a minha é a melhor. Nas últimas semanas, a minha escova desapareceu. Eu e a miúda, as duas com uma cabeleira extensa, andámos a fazer rodagem às restantes escovas, sendo que nenhuma desembaraçava de facto como a minha. O miúdo não se queixou deste desaparecimento, mas com a azafama matinal, também não me ocorreu pensar na questão.

Esta semana, vejo a escova no lavatório dele. Penso, "olha que maravilha, onde será que andou este tempo todo?", penteio o cabelo com vigor, a miúda vê-me e exclama "boa mãe! encontraste-a ?" espera a sua vez, e penteia o cabelo com vigor. O miúdo dá um grito "quem é que me tirou a minha escova?" , entra na casa de banho, arranca a escova das mãos da irmã, reclama "que nojo, isto já está cheio de cabelos teus!", a miúda grita " como é que sabes que são meus?", o miúdo ainda grita mais alto "porque são loiros, e isto é nojento", a miúda exalta-se mais ainda "que eu saiba não sou a única loira, a mãe também é", eu tento acabar com a discussão e grito "parem com isso, até porque essa escova é minha!", e o miúdo diz-me "não, escova é minha! no último mês tem sido só minha!", eu percebo nesse instante que o miúdo me expropriou a escova com uma pintarola dos diabos, e é nestas alturas que me lembro da célebre frase da minha mãe "quando eu for velha espetam comigo num lar, sem piedade". 

Cansados

Historicamente, é nesta altura do ano que acusamos o cansaço. Raro é o dia que chegamos a horas à escola, raro é o dia que jantamos a horas, que nos deitamos a horas, que temos roupa a horas (entenda-se, lavada e passada nas gavetas), raro é o dia em que não reclamamos da falta de tempo. Porque os fins de semana passam a ser mais sociais, porque é a recta final escolar, porque é a recta final futebolística, porque é a recta final na dança, porque fazem os dois anos com quinze dias de diferença, porque eu cozinhei para um batalhão com quinze dias de diferença, porque está sol e apetece férias. E é isto. E por isto, nem tenho vindo aqui. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Das recomendações

O miúdo foi convidado a jogar noutro clube.
Assim, vai deixar um clube da aldeia, para ir para um clube da cidade.
Sabia que  a nostalgia de deixar os amigos e treinador do clube que representou até hoje, era grande. Mas também sabia que ele estava contente pela mudança.  
Sei que a mudança é grande, e que esteve até hoje em boas mãos. Sei que de todas as vezes que lhe disse que nunca o queria ouvir a dizer asneiras, ele me dizia que o treinador nem deixava. E tantas vezes ouvi outras equipas darem os parabéns à nossa, pela atitude, civismo e boa educação.
Sei que agora vou ter de estar mais atenta, e tentar que não se esqueça dos valores incutidos até então. Não digas asneiras.  Não contestes o Sr. árbitro. Não cuspas para o chão. Ouviste? Cuspir para o chão é horrível e nojento. 

No momento da assinatura do contrato com o novo clube, quis registar o acontecimento. Ele refilou, eu que me deixasse de certas mariquices, ainda alguém podia ver, e era uma vergonha. Assim, a custo, consegui  captar o momento. 

É urgente actualizar a lista: não digas asneiras. não contestes o árbitro. não cuspas para o chão. não coces a tomatada.

Profissões ingratas

Do meu fim de semana fiz a seguinte introspecção : se o teu filho quiser seguir uma profissão, que seja qualquer uma, mas que nunca, em circunstância alguma, seja árbitro, ou tu, a mãe, vais ser puta o resto da vida. E ele, o filho, vai ser cabrão o resto da vida. 
Assim, sábado de manhã, no jogo do miúdo, lá estava um. Um cabrão. Um filho da puta. 
No domingo de manhã, no jogo do miúdo, eram dois. O árbitro, e o fiscal de linha. Os dois uns cabrões, uns filhos das putas. Domingo à tarde, no belenenses-porto, eram três. O árbitro e os dois fiscais de linha. Os três uns cabrões e uns valentes filhos das putas. 
Eu, já devia estar habituada, mas há as coisas às quais não me consigo habituar. O defeito, deve ser meu...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Colecção (de maus odores)

O despertador tinha tocado há pouco. Acordo a miúda primeiro, só dez minutos depois, o miúdo. Ele é mais rápido, dou-lhe mais uns minutos de sono. Abro a porta do quarto . Entro no quarto. Sinto um cheiro intenso, e penso que está um cão morto algures num canto qualquer. Mas o nosso cão está de saúde, benzó Deus. Assim que o sol invade o quarto, vejo o armário do calçado do futebol escancarado. Aproximo-me. O cão está ali. Não se pode ali estar. Antes de sair de casa, deixo as janelas abertas. E ponho tudo a arejar.
Olho para a fileira de chuteiras que me empestaram o quarto, e pergunto-me como é que o miúdo me pediu umas novas, de presente, para o seu aniversário desta semana... É mais ou menos na mesma linha do seu sexto aniversário. Conforme os amigos vinham chegando para a festa, eu via o monte de bolas que recebeu de presente a crescer exponencialmente. E ele já tinha uma colecção considerável. No fim da festa, e sem saber o que fazer a tanta bola, comentei que achava curioso todos os meninos terem tido a mesma ideia. E ele disse-me no seu ar mais inocente "a todos os que me perguntaram o que é que eu queria receber, eu disse uma bola de futebol..."


sábado, 16 de maio de 2015

Provérbios

As dúvidas do miúdo:

- mãe, "em casa de ferreiro, espeto o meu pau", não é?