segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Foi hoje

Voltámos à rotina. 
Com ela, a constatação de vários dramas, que se abateram sob as cabeças adolescentes desta casa. 
Ela, que se apercebeu hoje, logo hoje, primeiro dia de aulas, que não tem nada para vestir. O horror, o descalabro. Disse-lhe que sim, que tinha razão, evitando parecer mais irónica do que o que estava a ser na realidade, porque no fundo, é um drama que reconheço ser comum a ambas. 
Ele acordou, olhou-me ensonado e disse "estou muito preocupado". Perguntei porquê, embora sem grande entusiasmo, a primeira meia hora da manhã, todos sabem, não sou dada a grandes diálogos. Afinal, está só preocupado com o oitavo ano. Menos mal. 
Enquanto partilhávamos todos a minha casa de banho (rotina a que já não estava habituada, vá-se lá perceber porque é que não se distribuem pelas outras duas, e andamos ali os três a discutir dois lavatórios), e ele transformava a franja numa ostensiva pôpa, rematou:
"parece-me que vou entrar em depressão. esta vida não foi feita para mim". 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

De rotinas. Precisa-se.

De escola. Precisa-se.
Está a fazer-lhes uma falta danada. Eles não sabem. Mas eu sei. Eles acham que não . Eu tenho a certeza que sim . 
Não há razões de queixa das férias. Ninguém se queixa. Nem eu, muito menos eles. Algarve e Sesimbra comigo. Porto com o pai. Ele novamente Algarve com amigos. Ela com as amigas ainda foi à comporta, a Alenquer e a Londres. Mas agora estão em casa. E não há quem os ature. Ele tem desafiado a construção da nossa casa. É das boas. Um bom investimento, tenho atestado. Os constantes remates às paredes, e nem uma lasca na tinta, ou um bocado de estuque ao chão. Tem sido um desafio também à paciência da vizinhança que ainda não se queixou.
Ela esgotou todas as temporadas da anatomia de grey, que resolveu ver desde os tempos primórdios, num daqueles sites manhosos ( ilegais) com legendas em português brasileiro, do pior que pode haver. Tem sido um teste ao pobre computador, que ao fim de umas horas bufa por todos os orifícios, a anunciar o cansaço através de uma barulhenta ventoinha. 
E depois há o teste à minha paciência , com as constantes guerrilhas entre eles, quem acabou com a nutella,  "que ainda ontem havia um frasco quase cheio", de quem é a vez de ir com o cão à rua, "que não posso ser eu, que já fui mais vezes e isto assim é uma injustiça", quem é que deixou aquele copo na sala "não fui eu" " nem eu" e não foi ninguém, de quem é a vez de pôr a mesa "ontem fui eu!" " tás-te a passar? Fui eu !", e que ela está farta do mau feitio dele, e que ele está farto  daquele feitiozinho dela, e se as férias não acabam, ainda vislumbro pancadaria  na certa. 
E eles estão fartos de mim, e da minha mania das arrumações e limpezas ( não é uma mania, já disse), e do meu feitio autoritário ( de mãe ), e das minhas queixas com os horários desconcertados deles ( e é a razão pela qual sou a única a não conseguir ver o filme da noite até ao fim, outra queixa deles ), e do cão não ser minha responsabilidade ( apesar de o passeio nocturno ser maioritariamente meu, porque eu ladro, mas não mordo). 
Na verdade, estamos mesmo a precisar das rotinas. De escola, de dança, futebol e natação, de energias gastas, para daqui a dois meses nos estarmos a queixar delas, e a ansiar por novas férias.

Estou cá.

Provavelmente nem vale a pena explicar a ausência.
Até porque na verdade, nem há razão plausível a explicar.

Entro assim de fininho, como se nada fosse, como se quase dois meses não tivessem passado, e retomo o fio à meada.
Estou cá. Não sei se para ficar, mas estou.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Nesta, ou noutra vida


-Um dia vamos ?
-Sim. Um dia.
-Juntos?
-Sim. Juntos.
-Um dia, quando?
-Não sei. Um dia.
-Nesta, ou noutra vida?
-Talvez nesta. Talvez noutra.
-Sim... Noutra, talvez.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Férias atribuladas

"Vamos de férias", digo-lhe . Assim que as aulas terminem . Só nós, e os miúdos. E amigos dos miúdos . Dois carros cheios. 
A primeira semana só de mulheres . Eu , ela, a minha filha, as duas dela . E duas amigas. À segunda  semana juntamos mais dois. O meu e um amigo. Quatro são nossos . Os meus dois. As duas dela . Os três restantes são amigos. Sete miúdos, para duas. Fácil . 
Dia 1- uma das amigas, com um febrão brutal. Vá de brufen. 
Dia 2- sou picada na praia por uma vespa. Sacana da filha de um ganda vespão, que aquilo doi como tudo.
Dia 3 - a garganta da amiga evidência uma amigdalite jeitosa. Uma ida ao hospital e um antibiótico prescrito. Uma das filhas da minha amiga fica com febre. 
Dia 4- resguardam-se as doentes, ora em casa, ora debaixo do chapéu de sol ( felizmente um valente chapéu, tamanho xl).
Dia 5- a minha filha é picada por um peixe aranha. Não a via chorar assim desde que era bebê . O nadador salvador já me conhece, desde a picada da vespa, e trata dela com muito jeitinho ( todas as outras amigas, quase desejam  uma picada semelhante, já que o rapaz é giro como tudo ).
Dia 6- a amigdalite da amiga piora consideravelmente, nova ida ao hospital, novo antibiótico. Uma "bomba" de uma toma só, e a promessa da recuperação em dois dias. A miúda não aguenta aquilo no estômago e vomita um bocado. Tentamos avaliar o tamanho do " bocado", e rezamos para que o restante surta efeito. 
Dia 7- a outra amiga, acorda sem conseguir abrir os olhos. Inchados. Muito inchados. Sem razão aparente. Fazemos uma consulta via telefone com um médico amigo. Fica resguardada do sol. 
Dia 8- a outra filha da minha amiga acorda com febre. 

Dos nove intervenientes destas férias, .  há três a quem ainda não lhes " tocou" nada. Mas calma, que ainda temos quatro dias pela frente ...

sábado, 20 de junho de 2015

Descanso

Olho à minha volta . Olhos semi cerrados, o sol aflige-me. Tento habituar-me à claridade -  não posso estar sempre de óculos escuros, que já consigo visualizar as marcas do sol, a face bronzeada , a pele circundante aos olhos, mais esbranquiçada. Olho à minha volta . Vejo grávidas . Muitas grávidas . Mulheres prenhas, exibindo barrigas imponentes e umbigos prestes a explodir . E muitas mães. Já efectivas, com filhos cá fora, bebês pequenos, crianças pequenas, crianças crescidas. Lembro-me da notícia que li ontem, assim na diagonal, de que as estatísticas indicam que o nosso país está cada vez mais velho. Por cada cento e quarenta idosos, cem crianças. Este país não pode estar velho. Esta praia não é de velhos. Até onde a minha vista alcança não consigo vislumbrar nenhum, embora saiba que aos olhos dos meus filhos se encontram dezenas. 
O sol escalda-me, e olho para as miúdas. Levanto-me em preguiça, e dou uma esguichadela de spray nas costas de cada uma . Estão alinhadas, as cinco - quais frangos na grelha de um churrasco. Espalho o protector deixando resticios de creme branco sem que se apercebam. Sei que não gostam, mas ao comentário da minha ( " nunca me lembro de seres tão chata com o protector" ) respondo com as estatísticas de cancro de pele cada vez mais altas. As estatísticas. Sempre as estatísticas. Volto a deitar-me em preguiça . Uns metros à frente, um casal com duas crianças. Não descansam em preguiça, e olho-lhes os movimentos. A mãe emborca um biberon de leite na boca do bebê, enquanto o pai muda a fralda cueca do mais velho. Fralda mudada , sentados debaixo do chapéu, o pai abre o jornal depois de dar uns brinquedos ao filho. Pensa " entretém-te aí um bocado" - imagino. A criança não se entretém, num ápice abandona a sombra. A mãe, empunha o bebê ao colo, dando-lhe pancadinhas nas costas. Intervalado com as pancadinhas, com um só braço, pega numa lancheira que entrega ao marido, olhos postos no jornal. " o Afonso, o Manel, o Gonçalo, ou quiça o Zé Maria, tem fome " - imagino que lhe diga. O pai dobra o jornal, mal dobrado, páginas desalinhadas e já cheias de areia, pega no Afonso, no Manel, no Gonçalo ou quiça no Zé Maria, senta-o de novo à sombra, e articula colheradas de iogurte pela boca do filho. Uma mão de areia furtuita apimenta o iogurte - os ânimos. O pai zanga-se, levanta-se, procura qualquer coisa no saco gigante que imagino que carregou a custo, e enfia o iogurte inacabado num saco de plástico. A mãe deita o bebê no colo, depois de um arroto imponente - quase que o consegui ouvir. 
O pai desdobra o jornal, tenta alinhá-lo, as folhas estão tesas do sol, não se alinham . O miúdo chora, levanta-se, o pai ralha, a mãe faz pchiu, o miúdo quer ir chapinhar no mar, o bebê quer dormir - imagino. 
O pai olha na minha direção, baixo a cabeça. O sol escalda-me as costas,  desafio as miúdas para um mergulho. Enquanto me levanto, vejo as folhas do jornal, cada vez mais desalinhadas, o pai gesticula um qualquer ralhete ao miúdo, o bebê esperneia com calor - imagino. 
A mãe está impaciente, agarra no jornal, agora transformado em dois, enfia-o no saco gigante com algum vigor, o pai arranca em passo acelerado com o Afonso, o Manel, o Gonçalo, quiça o Zé Maria de braçado, em direção à água. 
A mãe, uma rapariga para a minha idade - penso se devo deixar de dizer "rapariga", de cada vez que me lembro de ouvir o meu avô " vou jogar às cartas com os rapazes ". Um dia, estranhando a disponibilidade daqueles rapazes da minha imaginação, para jogarem às cartas com um homem de quase nove décadas completas, perguntei quantos anos tinham os rapazes. " são todos rapazes aí para a minha idade" respondeu-me - de barriga ainda proeminente de um parto recente, ajeita melhor o bebê na sombra, deita-se a seu lado, vai descansar um pouco - adivinho-lhe o cansaço, enquanto  caminho para o mar. 
O descanso é breve, quase instantâneo. O pai cruza-se comigo, o Salvador - ouço-o agora, enquanto reclama com o filho, as mãos cheias de areia nos olhos - chora, aflito, e pede a mãe.