quinta-feira, 18 de junho de 2015

Duplamente orgulhosa

O miúdo liga-me " mãe , tenho excelentes notícias !" . Adivinho-lhe no entusiasmo, as notas escolares . Os olhos enchem-se-me de lágrimas. Não só porque me emociono por dá cá aquela palha, não só porque as notas foram melhores do que o previsto, mas porque estou de férias com a miúda, sem ele, porque ele assim o desejou, e porque cedi à sua vontade, e porque me custa. 
Dou-lhe os parabéns com a voz embargada, e aproveito para o relembrar que apesar de ter tido apenas dois " três "o resultado poderia ter sido melhor, e que para o ano terá de se esforçar mais. Sou uma pica miolos, mas com ele tenho de ser pica miolos quase a tempo inteiro. Diz-me que teve tudo o resto " quatro" e nota cinco e educação física e educação visual. Dá uma gargalhada. Gargalho com ele. Nota máxima a educação visual  é no mínimo ridículo, ele que não tem jeitinho nenhum para aquilo. Ele que tem sempre os trabalhos em atraso. Ele que tem um traços ao nível de um miúdo da primária. Mas o professor organiza um torneio de futebol inter turmas, e nessa organização ele deve ter sido talvez o mais interessado em colaborar. Oiço-o feliz, e penso que este miúdo tem sorte, porque é assim, meio desleixado, meio esquecido, meio aplicado, meio falador, meio distraído ( ou muito, tudo ), mas tem uma capacidade natural de cativar as pessoas. 
De seguida, recebo sem surpresa as notas da miúda. Ela que se empenhou, esforçou e trabalhou muito. A média de quinze não é brilhante, principalmente para quem não sabe ainda o que seguir concretamente ( embora continue a ambicionar algo na área da saúde ), mas é o suficiente para me deixar orgulhosa porque foi conseguida com esforço e dedicação. 
A minha amiga, que está de férias comigo, também recebe as boas novas, sem surpresa. As duas filhas, na mesma turma dos meus, no topo da lista como melhores alunas. 
" vamos comemorar" diz-me. 
Ainda que sem o miúdo, mas com as miúdas e as amigas delas que 
trouxemos, saímos para o brinde. Duplamente orgulhosas. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Voltei, voltei

Andei arredada daqui . 
Pela falta de tempo , ou porque simplesmente , não me apetecia . Às vezes sou assim . Arredo -me de certas coisas , mesmo daquelas que gosto , porque preciso , porque tenho essa necessidade . Depois regresso , como se nada fosse , como se tempo algum tivesse passado , desse arredo natural e propositado . Volto , porque lhe sinto a falta , ou tão só , porque me apetece . 
Hoje , voltei.
Porque me apeteceu , e porque senti falta . 
E escrevi palavras soltas , aquelas que me apeteceram no momento , através das curtas teclas do ecrã do meu telemóvel ( isto não são teclas , é apenas um vidro táctil ), e depois irritei-me , porque me irritam as tecnologias , e não conseguia alinhar o texto, e não conseguia alterar o tipo de letra ( embiquei com o arial, como quem embica com um único par de jeans, apesar das dezenas que permanecem renegadas no roupeiro porque não caem tão bem , quanto aquelas ), e não conseguia anexar uma foto, e logo agora , que de férias, uma pessoa até podia postar umas paisagens jeitosas ( que fica sempre bem ).
E depois das curtas palavras , que fui despejando ao acaso , senti falta de visitar todos os reinos vizinhos que visito regularmente . Senti falta da Uva, que às vezes me dá as notícias do dia , mesmo antes de as ver noutros meios de comunicação social , senti falta das incursões ao supermercado da Linda Porca , senti falta das frases poéticas da Maria Eu, senti falta da L das horas e de saber como está, da Sci, da Alice, da São e de saber o que anda por aí a experimentar, das Ninas, da Gaja Maria e suas pedaladas , da avó Gi, da Vania, e de tantos outros reinos, que acompanho como se fôssemos amigos , ainda que não lhes conheça a cara, ainda que tenha levado anos , relutante em relação a este mundo, que é o virtual ( passinhos pequenos , na tecnologia que tanto me irrita ). 
Depois tentei. Bem ditos três euros para passar os míseros duzentos megas a um fantástico giga, e vamos a isto - pensei. Depois a rede não é fantástica. E uma pessoa fica a olhar para a linha no topo do ecrã, enquanto o sol lhe escalda as costas. E a linha chega ao fim . E uma pessoa tenta ler, e amplia o ecrã , não que tenha falta de vista , que isso já me avisaram que é a partir dos quarenta , e os meus são ainda frescos como uma alface ( embora pensando bem , daqui a nada já vou no enta e um, que os meses passam a correr, e já lá vai meio ano, desde essa entrada na ternura dos entas), mas porque o ecrã é efectivamente pequeno, porque o sol é efectivamente ofuscante, porque a net voltou a ficar lenta, e porque , afinal de contas estou na praia e não se pode exigir mais. Então desisti. Agarrei no livro , aquele em papel, tecnologia do antigamente , e debrucei-me sob ele, deixando os reinos vizinhos para o meu regresso. Que é daqui a quinze dias.  E passa num abrir e fechar de olhos, que o que é bom, acaba-se depressa. 
Agora chega. Vou ali dar um mergulho para comemorar os meus passinhos pequenos na tecnologia. É que no entretanto , além de escrever um post via telemovel  , também já descobri como postar fotos . Um viva para mim . 

Não é para meter inveja , mas estou mesmo é de férias

Esta rainha estava cansada.
Cansada da época de testes escolares dos miúdos , da miúda fechada no seu casulo, a dar o litro nesta recta final, do miúdo a fazer tudo , menos fechar-se no seu casulo, a dar meio decilitro nesta recta final. Das minhas tentativas ( tantas vezes goradas) de o fazer ver que um último esforço valia a pena , que a vida se faz de esforço , de empenho , e não só no futebol.
Esta rainha estava cansada de se desdobrar entre idas a dois campos de treinos, à escola de dança , ao inglês , ao supermercado , do pó, do aspirador , do ferro, da roupa que está seca há três dias, que ninguém apanhou e que está tesa que nem carapau ( um carapau seco e teso entenda-se) . Esta rainha estava cansada de tachos e panelas , e de pensar na ementa do hoje e no menu de amanhã, e no que tinha ficado por fazer no escritório , para o dia seguinte.
Vai daí, esta rainha cansada encheu o carro de mantimentos e de miúdas , e embarcou numas ferias . O miúdo ficou para um último torneio de futebol , e há-de chegar nos próximos dias. As notas , essas , conquistadas com esforço, barra, pouco esforço , hão de chegar lá mais para o fim do dia , via sms. Esta rainha estava cansada , e recupera agora na areia de uma praia.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Conselho do dia (vale o que vale)

Dos meus arrumadores de carros de há anos, a quem confio o carro todo o dia,  sei um pouco da história de cada um. São três. E as histórias são idênticas. Estiveram os três presos. Mais do que uma vez. Uns, mais anos do que outros. Dois deles em lisboa. Um deles experimentou uma prisão em Itália. Todos, pelas mesmas razões. Roubo, tráfico. Dois deles foram toxicodependentes "oh Dona, eu agora é só ganzas. Drogas duras já não.". O outro, nunca foi dependente "oh Dona, então se eu vi a minha mãe morrer com a idade que eu tenho hoje, trinta e um anos, com um cancro pelo corpo todo, mas agarrada às drogas, acha que eu ia meter-me nisso?". Dois deles têm duas filhas, o outro não experienciou ainda a paternidade. Vivem todos na rua há anos. Muitos anos. Todos tiveram pais dependentes (álcool e drogas), todos sofreram violência física por parte dos mesmos.
Um deles hoje, queixava-se dos pais, da negligência que tiveram perante uma serie de filhos, da violência do pai bêbado, e de nunca ter conhecido os padrinhos. Todos tinham padrinhos, menos ele. E isso, ele não perdoava.
 
- Oh Dona, se eu tivesse tido padrinhos, podia ser que eles me dessem conselhos, que me tivessem orientado para a vida. Conselhos. Às vezes é bom ouvir conselhos. Por exemplo, chateei-me ali com o Zé - um dos outros arrumadores - porque muitas vezes que lhe peço conselhos, e ele só me diz para ler um livro. E não é esse conselho que eu preciso de ouvir. Então agora vou enfiar a cabeça num livro?
 
Perguntei-lhe se tem visto as filhas.
 
- Não Dona. A mais velha que tem dez anitos, nunca a vejo. Porque vive ali para os lados da Amadora.
- Da Amadora? Então, mas a Amadora é já aqui ao lado...
- Pois Dona, mas há outras coisas... A mãe dela também não deixa, e quando eu ligo, só me pede dinheiro. - Mostra-me a fotografia da filha.
- É linda - digo-lhe - Então e a outra?
- A outra vejo-a quando me apetece, e ligo-lhe de vez em quando. Mas por exemplo, ainda ontem lhe liguei, para irmos àquela loja da Primark, no Colombo, sabe? E ela disse-me que preferia ir ao Vasco da Gama ao MacDonald's. Eu disse-lhe que não. Então tinha que a ir buscar lá abaixo, depois ir para a Expo, e depois vir outra vez? Não dava! - Mostra-me a fotografia da mais pequena.
- É linda. Mas olha, devias fazer por ver as tuas filhas mais vezes. Faz um esforço. Pensa assim: se és tão revoltado por achares que os teus pais não te deram conselhos, por não teres tido padrinhos para te darem conselhos, pensa que um dia mais tarde, as tuas filhas podem vir a ser revoltadas por terem tido um pai ausente, que não lhes deu conselhos. Pensa que se tu precisavas disso, ela também irão precisar. E ainda vais a tempo.
- Oh Dona, 'tá a ver? Isso é um bom conselho. Isso é um conselho que eu aceito de bom grado.
- Pronto, isto é o conselho do dia. Vê o que é que fazes com ele. Outro dia, há mais.
- Obrigado Dona. A sério. Obrigado.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Expropriada

Somos quatro. Eu, a miúda, o miúdo, o cão.
Cada um tem o seu quarto (sendo que o cão, ficou confinado à cozinha, na hora da deita).
Temos três casas de banho. A social (que me irrita solenemente quando vejo que o miúdo a usou - e é tão evidente que foi ele, apesar de esbracejar e jurar a pés juntos que não foi), a minha, e a deles (sendo que o cão tem o privilégio de usar uma casa de banho imensa em cada arbusto por onde passa).

O miúdo usa a casa de banho deles (e por vezes a sanita social), a miúda só usufrui da banheira. Tudo o resto, usa na minha, que o lavatório é maior (um para cada uma), e a panóplia de cremes e maquilhagem que é minha, passa a ser nossa. 
Temos cinco escovas de cabelo. O que por si só, seria mais do que suficiente, dado que o cão tem a dele (e que ninguém discute a partilha), cada um dos miúdos a sua (sendo que na minha perspectiva, o miúdo até com os dedos se safava), e eu tenho duas (sendo que uma, apesar de me ter custado os olhos da cara, não penteia nada, uma vez que é própria para extensões, um devaneio meu, há milhares de anos atrás, quando decidi cortar a minha linda cabeleira comprida  pelos ombros e me arrependi no segundo seguinte).

Acontece que, na nossa rotina matinal, há um momento em que estamos todos a dar os últimos retoques na casa de banho. E é nessa altura que andamos esbaforidos à procura DA escova de cabelo. Que mais não é, do que a MINHA. E eu reclamo, que com tanta escova, todos enbicaram com a minha, e eles reclamam que de todas, a minha é a melhor. Nas últimas semanas, a minha escova desapareceu. Eu e a miúda, as duas com uma cabeleira extensa, andámos a fazer rodagem às restantes escovas, sendo que nenhuma desembaraçava de facto como a minha. O miúdo não se queixou deste desaparecimento, mas com a azafama matinal, também não me ocorreu pensar na questão.

Esta semana, vejo a escova no lavatório dele. Penso, "olha que maravilha, onde será que andou este tempo todo?", penteio o cabelo com vigor, a miúda vê-me e exclama "boa mãe! encontraste-a ?" espera a sua vez, e penteia o cabelo com vigor. O miúdo dá um grito "quem é que me tirou a minha escova?" , entra na casa de banho, arranca a escova das mãos da irmã, reclama "que nojo, isto já está cheio de cabelos teus!", a miúda grita " como é que sabes que são meus?", o miúdo ainda grita mais alto "porque são loiros, e isto é nojento", a miúda exalta-se mais ainda "que eu saiba não sou a única loira, a mãe também é", eu tento acabar com a discussão e grito "parem com isso, até porque essa escova é minha!", e o miúdo diz-me "não, escova é minha! no último mês tem sido só minha!", eu percebo nesse instante que o miúdo me expropriou a escova com uma pintarola dos diabos, e é nestas alturas que me lembro da célebre frase da minha mãe "quando eu for velha espetam comigo num lar, sem piedade". 

Cansados

Historicamente, é nesta altura do ano que acusamos o cansaço. Raro é o dia que chegamos a horas à escola, raro é o dia que jantamos a horas, que nos deitamos a horas, que temos roupa a horas (entenda-se, lavada e passada nas gavetas), raro é o dia em que não reclamamos da falta de tempo. Porque os fins de semana passam a ser mais sociais, porque é a recta final escolar, porque é a recta final futebolística, porque é a recta final na dança, porque fazem os dois anos com quinze dias de diferença, porque eu cozinhei para um batalhão com quinze dias de diferença, porque está sol e apetece férias. E é isto. E por isto, nem tenho vindo aqui. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Das recomendações

O miúdo foi convidado a jogar noutro clube.
Assim, vai deixar um clube da aldeia, para ir para um clube da cidade.
Sabia que  a nostalgia de deixar os amigos e treinador do clube que representou até hoje, era grande. Mas também sabia que ele estava contente pela mudança.  
Sei que a mudança é grande, e que esteve até hoje em boas mãos. Sei que de todas as vezes que lhe disse que nunca o queria ouvir a dizer asneiras, ele me dizia que o treinador nem deixava. E tantas vezes ouvi outras equipas darem os parabéns à nossa, pela atitude, civismo e boa educação.
Sei que agora vou ter de estar mais atenta, e tentar que não se esqueça dos valores incutidos até então. Não digas asneiras.  Não contestes o Sr. árbitro. Não cuspas para o chão. Ouviste? Cuspir para o chão é horrível e nojento. 

No momento da assinatura do contrato com o novo clube, quis registar o acontecimento. Ele refilou, eu que me deixasse de certas mariquices, ainda alguém podia ver, e era uma vergonha. Assim, a custo, consegui  captar o momento. 

É urgente actualizar a lista: não digas asneiras. não contestes o árbitro. não cuspas para o chão. não coces a tomatada.