segunda-feira, 1 de junho de 2015

Conselho do dia (vale o que vale)

Dos meus arrumadores de carros de há anos, a quem confio o carro todo o dia,  sei um pouco da história de cada um. São três. E as histórias são idênticas. Estiveram os três presos. Mais do que uma vez. Uns, mais anos do que outros. Dois deles em lisboa. Um deles experimentou uma prisão em Itália. Todos, pelas mesmas razões. Roubo, tráfico. Dois deles foram toxicodependentes "oh Dona, eu agora é só ganzas. Drogas duras já não.". O outro, nunca foi dependente "oh Dona, então se eu vi a minha mãe morrer com a idade que eu tenho hoje, trinta e um anos, com um cancro pelo corpo todo, mas agarrada às drogas, acha que eu ia meter-me nisso?". Dois deles têm duas filhas, o outro não experienciou ainda a paternidade. Vivem todos na rua há anos. Muitos anos. Todos tiveram pais dependentes (álcool e drogas), todos sofreram violência física por parte dos mesmos.
Um deles hoje, queixava-se dos pais, da negligência que tiveram perante uma serie de filhos, da violência do pai bêbado, e de nunca ter conhecido os padrinhos. Todos tinham padrinhos, menos ele. E isso, ele não perdoava.
 
- Oh Dona, se eu tivesse tido padrinhos, podia ser que eles me dessem conselhos, que me tivessem orientado para a vida. Conselhos. Às vezes é bom ouvir conselhos. Por exemplo, chateei-me ali com o Zé - um dos outros arrumadores - porque muitas vezes que lhe peço conselhos, e ele só me diz para ler um livro. E não é esse conselho que eu preciso de ouvir. Então agora vou enfiar a cabeça num livro?
 
Perguntei-lhe se tem visto as filhas.
 
- Não Dona. A mais velha que tem dez anitos, nunca a vejo. Porque vive ali para os lados da Amadora.
- Da Amadora? Então, mas a Amadora é já aqui ao lado...
- Pois Dona, mas há outras coisas... A mãe dela também não deixa, e quando eu ligo, só me pede dinheiro. - Mostra-me a fotografia da filha.
- É linda - digo-lhe - Então e a outra?
- A outra vejo-a quando me apetece, e ligo-lhe de vez em quando. Mas por exemplo, ainda ontem lhe liguei, para irmos àquela loja da Primark, no Colombo, sabe? E ela disse-me que preferia ir ao Vasco da Gama ao MacDonald's. Eu disse-lhe que não. Então tinha que a ir buscar lá abaixo, depois ir para a Expo, e depois vir outra vez? Não dava! - Mostra-me a fotografia da mais pequena.
- É linda. Mas olha, devias fazer por ver as tuas filhas mais vezes. Faz um esforço. Pensa assim: se és tão revoltado por achares que os teus pais não te deram conselhos, por não teres tido padrinhos para te darem conselhos, pensa que um dia mais tarde, as tuas filhas podem vir a ser revoltadas por terem tido um pai ausente, que não lhes deu conselhos. Pensa que se tu precisavas disso, ela também irão precisar. E ainda vais a tempo.
- Oh Dona, 'tá a ver? Isso é um bom conselho. Isso é um conselho que eu aceito de bom grado.
- Pronto, isto é o conselho do dia. Vê o que é que fazes com ele. Outro dia, há mais.
- Obrigado Dona. A sério. Obrigado.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Expropriada

Somos quatro. Eu, a miúda, o miúdo, o cão.
Cada um tem o seu quarto (sendo que o cão, ficou confinado à cozinha, na hora da deita).
Temos três casas de banho. A social (que me irrita solenemente quando vejo que o miúdo a usou - e é tão evidente que foi ele, apesar de esbracejar e jurar a pés juntos que não foi), a minha, e a deles (sendo que o cão tem o privilégio de usar uma casa de banho imensa em cada arbusto por onde passa).

O miúdo usa a casa de banho deles (e por vezes a sanita social), a miúda só usufrui da banheira. Tudo o resto, usa na minha, que o lavatório é maior (um para cada uma), e a panóplia de cremes e maquilhagem que é minha, passa a ser nossa. 
Temos cinco escovas de cabelo. O que por si só, seria mais do que suficiente, dado que o cão tem a dele (e que ninguém discute a partilha), cada um dos miúdos a sua (sendo que na minha perspectiva, o miúdo até com os dedos se safava), e eu tenho duas (sendo que uma, apesar de me ter custado os olhos da cara, não penteia nada, uma vez que é própria para extensões, um devaneio meu, há milhares de anos atrás, quando decidi cortar a minha linda cabeleira comprida  pelos ombros e me arrependi no segundo seguinte).

Acontece que, na nossa rotina matinal, há um momento em que estamos todos a dar os últimos retoques na casa de banho. E é nessa altura que andamos esbaforidos à procura DA escova de cabelo. Que mais não é, do que a MINHA. E eu reclamo, que com tanta escova, todos enbicaram com a minha, e eles reclamam que de todas, a minha é a melhor. Nas últimas semanas, a minha escova desapareceu. Eu e a miúda, as duas com uma cabeleira extensa, andámos a fazer rodagem às restantes escovas, sendo que nenhuma desembaraçava de facto como a minha. O miúdo não se queixou deste desaparecimento, mas com a azafama matinal, também não me ocorreu pensar na questão.

Esta semana, vejo a escova no lavatório dele. Penso, "olha que maravilha, onde será que andou este tempo todo?", penteio o cabelo com vigor, a miúda vê-me e exclama "boa mãe! encontraste-a ?" espera a sua vez, e penteia o cabelo com vigor. O miúdo dá um grito "quem é que me tirou a minha escova?" , entra na casa de banho, arranca a escova das mãos da irmã, reclama "que nojo, isto já está cheio de cabelos teus!", a miúda grita " como é que sabes que são meus?", o miúdo ainda grita mais alto "porque são loiros, e isto é nojento", a miúda exalta-se mais ainda "que eu saiba não sou a única loira, a mãe também é", eu tento acabar com a discussão e grito "parem com isso, até porque essa escova é minha!", e o miúdo diz-me "não, escova é minha! no último mês tem sido só minha!", eu percebo nesse instante que o miúdo me expropriou a escova com uma pintarola dos diabos, e é nestas alturas que me lembro da célebre frase da minha mãe "quando eu for velha espetam comigo num lar, sem piedade". 

Cansados

Historicamente, é nesta altura do ano que acusamos o cansaço. Raro é o dia que chegamos a horas à escola, raro é o dia que jantamos a horas, que nos deitamos a horas, que temos roupa a horas (entenda-se, lavada e passada nas gavetas), raro é o dia em que não reclamamos da falta de tempo. Porque os fins de semana passam a ser mais sociais, porque é a recta final escolar, porque é a recta final futebolística, porque é a recta final na dança, porque fazem os dois anos com quinze dias de diferença, porque eu cozinhei para um batalhão com quinze dias de diferença, porque está sol e apetece férias. E é isto. E por isto, nem tenho vindo aqui. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Das recomendações

O miúdo foi convidado a jogar noutro clube.
Assim, vai deixar um clube da aldeia, para ir para um clube da cidade.
Sabia que  a nostalgia de deixar os amigos e treinador do clube que representou até hoje, era grande. Mas também sabia que ele estava contente pela mudança.  
Sei que a mudança é grande, e que esteve até hoje em boas mãos. Sei que de todas as vezes que lhe disse que nunca o queria ouvir a dizer asneiras, ele me dizia que o treinador nem deixava. E tantas vezes ouvi outras equipas darem os parabéns à nossa, pela atitude, civismo e boa educação.
Sei que agora vou ter de estar mais atenta, e tentar que não se esqueça dos valores incutidos até então. Não digas asneiras.  Não contestes o Sr. árbitro. Não cuspas para o chão. Ouviste? Cuspir para o chão é horrível e nojento. 

No momento da assinatura do contrato com o novo clube, quis registar o acontecimento. Ele refilou, eu que me deixasse de certas mariquices, ainda alguém podia ver, e era uma vergonha. Assim, a custo, consegui  captar o momento. 

É urgente actualizar a lista: não digas asneiras. não contestes o árbitro. não cuspas para o chão. não coces a tomatada.

Profissões ingratas

Do meu fim de semana fiz a seguinte introspecção : se o teu filho quiser seguir uma profissão, que seja qualquer uma, mas que nunca, em circunstância alguma, seja árbitro, ou tu, a mãe, vais ser puta o resto da vida. E ele, o filho, vai ser cabrão o resto da vida. 
Assim, sábado de manhã, no jogo do miúdo, lá estava um. Um cabrão. Um filho da puta. 
No domingo de manhã, no jogo do miúdo, eram dois. O árbitro, e o fiscal de linha. Os dois uns cabrões, uns filhos das putas. Domingo à tarde, no belenenses-porto, eram três. O árbitro e os dois fiscais de linha. Os três uns cabrões e uns valentes filhos das putas. 
Eu, já devia estar habituada, mas há as coisas às quais não me consigo habituar. O defeito, deve ser meu...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Colecção (de maus odores)

O despertador tinha tocado há pouco. Acordo a miúda primeiro, só dez minutos depois, o miúdo. Ele é mais rápido, dou-lhe mais uns minutos de sono. Abro a porta do quarto . Entro no quarto. Sinto um cheiro intenso, e penso que está um cão morto algures num canto qualquer. Mas o nosso cão está de saúde, benzó Deus. Assim que o sol invade o quarto, vejo o armário do calçado do futebol escancarado. Aproximo-me. O cão está ali. Não se pode ali estar. Antes de sair de casa, deixo as janelas abertas. E ponho tudo a arejar.
Olho para a fileira de chuteiras que me empestaram o quarto, e pergunto-me como é que o miúdo me pediu umas novas, de presente, para o seu aniversário desta semana... É mais ou menos na mesma linha do seu sexto aniversário. Conforme os amigos vinham chegando para a festa, eu via o monte de bolas que recebeu de presente a crescer exponencialmente. E ele já tinha uma colecção considerável. No fim da festa, e sem saber o que fazer a tanta bola, comentei que achava curioso todos os meninos terem tido a mesma ideia. E ele disse-me no seu ar mais inocente "a todos os que me perguntaram o que é que eu queria receber, eu disse uma bola de futebol..."


sábado, 16 de maio de 2015

Provérbios

As dúvidas do miúdo:

- mãe, "em casa de ferreiro, espeto o meu pau", não é?