quinta-feira, 28 de maio de 2015

Expropriada

Somos quatro. Eu, a miúda, o miúdo, o cão.
Cada um tem o seu quarto (sendo que o cão, ficou confinado à cozinha, na hora da deita).
Temos três casas de banho. A social (que me irrita solenemente quando vejo que o miúdo a usou - e é tão evidente que foi ele, apesar de esbracejar e jurar a pés juntos que não foi), a minha, e a deles (sendo que o cão tem o privilégio de usar uma casa de banho imensa em cada arbusto por onde passa).

O miúdo usa a casa de banho deles (e por vezes a sanita social), a miúda só usufrui da banheira. Tudo o resto, usa na minha, que o lavatório é maior (um para cada uma), e a panóplia de cremes e maquilhagem que é minha, passa a ser nossa. 
Temos cinco escovas de cabelo. O que por si só, seria mais do que suficiente, dado que o cão tem a dele (e que ninguém discute a partilha), cada um dos miúdos a sua (sendo que na minha perspectiva, o miúdo até com os dedos se safava), e eu tenho duas (sendo que uma, apesar de me ter custado os olhos da cara, não penteia nada, uma vez que é própria para extensões, um devaneio meu, há milhares de anos atrás, quando decidi cortar a minha linda cabeleira comprida  pelos ombros e me arrependi no segundo seguinte).

Acontece que, na nossa rotina matinal, há um momento em que estamos todos a dar os últimos retoques na casa de banho. E é nessa altura que andamos esbaforidos à procura DA escova de cabelo. Que mais não é, do que a MINHA. E eu reclamo, que com tanta escova, todos enbicaram com a minha, e eles reclamam que de todas, a minha é a melhor. Nas últimas semanas, a minha escova desapareceu. Eu e a miúda, as duas com uma cabeleira extensa, andámos a fazer rodagem às restantes escovas, sendo que nenhuma desembaraçava de facto como a minha. O miúdo não se queixou deste desaparecimento, mas com a azafama matinal, também não me ocorreu pensar na questão.

Esta semana, vejo a escova no lavatório dele. Penso, "olha que maravilha, onde será que andou este tempo todo?", penteio o cabelo com vigor, a miúda vê-me e exclama "boa mãe! encontraste-a ?" espera a sua vez, e penteia o cabelo com vigor. O miúdo dá um grito "quem é que me tirou a minha escova?" , entra na casa de banho, arranca a escova das mãos da irmã, reclama "que nojo, isto já está cheio de cabelos teus!", a miúda grita " como é que sabes que são meus?", o miúdo ainda grita mais alto "porque são loiros, e isto é nojento", a miúda exalta-se mais ainda "que eu saiba não sou a única loira, a mãe também é", eu tento acabar com a discussão e grito "parem com isso, até porque essa escova é minha!", e o miúdo diz-me "não, escova é minha! no último mês tem sido só minha!", eu percebo nesse instante que o miúdo me expropriou a escova com uma pintarola dos diabos, e é nestas alturas que me lembro da célebre frase da minha mãe "quando eu for velha espetam comigo num lar, sem piedade". 

Cansados

Historicamente, é nesta altura do ano que acusamos o cansaço. Raro é o dia que chegamos a horas à escola, raro é o dia que jantamos a horas, que nos deitamos a horas, que temos roupa a horas (entenda-se, lavada e passada nas gavetas), raro é o dia em que não reclamamos da falta de tempo. Porque os fins de semana passam a ser mais sociais, porque é a recta final escolar, porque é a recta final futebolística, porque é a recta final na dança, porque fazem os dois anos com quinze dias de diferença, porque eu cozinhei para um batalhão com quinze dias de diferença, porque está sol e apetece férias. E é isto. E por isto, nem tenho vindo aqui. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Das recomendações

O miúdo foi convidado a jogar noutro clube.
Assim, vai deixar um clube da aldeia, para ir para um clube da cidade.
Sabia que  a nostalgia de deixar os amigos e treinador do clube que representou até hoje, era grande. Mas também sabia que ele estava contente pela mudança.  
Sei que a mudança é grande, e que esteve até hoje em boas mãos. Sei que de todas as vezes que lhe disse que nunca o queria ouvir a dizer asneiras, ele me dizia que o treinador nem deixava. E tantas vezes ouvi outras equipas darem os parabéns à nossa, pela atitude, civismo e boa educação.
Sei que agora vou ter de estar mais atenta, e tentar que não se esqueça dos valores incutidos até então. Não digas asneiras.  Não contestes o Sr. árbitro. Não cuspas para o chão. Ouviste? Cuspir para o chão é horrível e nojento. 

No momento da assinatura do contrato com o novo clube, quis registar o acontecimento. Ele refilou, eu que me deixasse de certas mariquices, ainda alguém podia ver, e era uma vergonha. Assim, a custo, consegui  captar o momento. 

É urgente actualizar a lista: não digas asneiras. não contestes o árbitro. não cuspas para o chão. não coces a tomatada.

Profissões ingratas

Do meu fim de semana fiz a seguinte introspecção : se o teu filho quiser seguir uma profissão, que seja qualquer uma, mas que nunca, em circunstância alguma, seja árbitro, ou tu, a mãe, vais ser puta o resto da vida. E ele, o filho, vai ser cabrão o resto da vida. 
Assim, sábado de manhã, no jogo do miúdo, lá estava um. Um cabrão. Um filho da puta. 
No domingo de manhã, no jogo do miúdo, eram dois. O árbitro, e o fiscal de linha. Os dois uns cabrões, uns filhos das putas. Domingo à tarde, no belenenses-porto, eram três. O árbitro e os dois fiscais de linha. Os três uns cabrões e uns valentes filhos das putas. 
Eu, já devia estar habituada, mas há as coisas às quais não me consigo habituar. O defeito, deve ser meu...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Colecção (de maus odores)

O despertador tinha tocado há pouco. Acordo a miúda primeiro, só dez minutos depois, o miúdo. Ele é mais rápido, dou-lhe mais uns minutos de sono. Abro a porta do quarto . Entro no quarto. Sinto um cheiro intenso, e penso que está um cão morto algures num canto qualquer. Mas o nosso cão está de saúde, benzó Deus. Assim que o sol invade o quarto, vejo o armário do calçado do futebol escancarado. Aproximo-me. O cão está ali. Não se pode ali estar. Antes de sair de casa, deixo as janelas abertas. E ponho tudo a arejar.
Olho para a fileira de chuteiras que me empestaram o quarto, e pergunto-me como é que o miúdo me pediu umas novas, de presente, para o seu aniversário desta semana... É mais ou menos na mesma linha do seu sexto aniversário. Conforme os amigos vinham chegando para a festa, eu via o monte de bolas que recebeu de presente a crescer exponencialmente. E ele já tinha uma colecção considerável. No fim da festa, e sem saber o que fazer a tanta bola, comentei que achava curioso todos os meninos terem tido a mesma ideia. E ele disse-me no seu ar mais inocente "a todos os que me perguntaram o que é que eu queria receber, eu disse uma bola de futebol..."


sábado, 16 de maio de 2015

Provérbios

As dúvidas do miúdo:

- mãe, "em casa de ferreiro, espeto o meu pau", não é?


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Há lá coisa mai linda?

-Aiii...Que horas são?
- Onze e meia!

- Ohh... Leva-me contigo...
- P'rá onde?


- P'ra dançar na praia
- Só contigo?
- Simmmm, comigo. Dançar na praia, rolar no chão...