terça-feira, 19 de maio de 2015

Das recomendações

O miúdo foi convidado a jogar noutro clube.
Assim, vai deixar um clube da aldeia, para ir para um clube da cidade.
Sabia que  a nostalgia de deixar os amigos e treinador do clube que representou até hoje, era grande. Mas também sabia que ele estava contente pela mudança.  
Sei que a mudança é grande, e que esteve até hoje em boas mãos. Sei que de todas as vezes que lhe disse que nunca o queria ouvir a dizer asneiras, ele me dizia que o treinador nem deixava. E tantas vezes ouvi outras equipas darem os parabéns à nossa, pela atitude, civismo e boa educação.
Sei que agora vou ter de estar mais atenta, e tentar que não se esqueça dos valores incutidos até então. Não digas asneiras.  Não contestes o Sr. árbitro. Não cuspas para o chão. Ouviste? Cuspir para o chão é horrível e nojento. 

No momento da assinatura do contrato com o novo clube, quis registar o acontecimento. Ele refilou, eu que me deixasse de certas mariquices, ainda alguém podia ver, e era uma vergonha. Assim, a custo, consegui  captar o momento. 

É urgente actualizar a lista: não digas asneiras. não contestes o árbitro. não cuspas para o chão. não coces a tomatada.

Profissões ingratas

Do meu fim de semana fiz a seguinte introspecção : se o teu filho quiser seguir uma profissão, que seja qualquer uma, mas que nunca, em circunstância alguma, seja árbitro, ou tu, a mãe, vais ser puta o resto da vida. E ele, o filho, vai ser cabrão o resto da vida. 
Assim, sábado de manhã, no jogo do miúdo, lá estava um. Um cabrão. Um filho da puta. 
No domingo de manhã, no jogo do miúdo, eram dois. O árbitro, e o fiscal de linha. Os dois uns cabrões, uns filhos das putas. Domingo à tarde, no belenenses-porto, eram três. O árbitro e os dois fiscais de linha. Os três uns cabrões e uns valentes filhos das putas. 
Eu, já devia estar habituada, mas há as coisas às quais não me consigo habituar. O defeito, deve ser meu...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Colecção (de maus odores)

O despertador tinha tocado há pouco. Acordo a miúda primeiro, só dez minutos depois, o miúdo. Ele é mais rápido, dou-lhe mais uns minutos de sono. Abro a porta do quarto . Entro no quarto. Sinto um cheiro intenso, e penso que está um cão morto algures num canto qualquer. Mas o nosso cão está de saúde, benzó Deus. Assim que o sol invade o quarto, vejo o armário do calçado do futebol escancarado. Aproximo-me. O cão está ali. Não se pode ali estar. Antes de sair de casa, deixo as janelas abertas. E ponho tudo a arejar.
Olho para a fileira de chuteiras que me empestaram o quarto, e pergunto-me como é que o miúdo me pediu umas novas, de presente, para o seu aniversário desta semana... É mais ou menos na mesma linha do seu sexto aniversário. Conforme os amigos vinham chegando para a festa, eu via o monte de bolas que recebeu de presente a crescer exponencialmente. E ele já tinha uma colecção considerável. No fim da festa, e sem saber o que fazer a tanta bola, comentei que achava curioso todos os meninos terem tido a mesma ideia. E ele disse-me no seu ar mais inocente "a todos os que me perguntaram o que é que eu queria receber, eu disse uma bola de futebol..."


sábado, 16 de maio de 2015

Provérbios

As dúvidas do miúdo:

- mãe, "em casa de ferreiro, espeto o meu pau", não é?


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Há lá coisa mai linda?

-Aiii...Que horas são?
- Onze e meia!

- Ohh... Leva-me contigo...
- P'rá onde?


- P'ra dançar na praia
- Só contigo?
- Simmmm, comigo. Dançar na praia, rolar no chão...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Alterações

"Vou fazer umas alterações no meu terraço" , disse-lhe. 

Adoro alterações, e se pudesse estava sempre a alterar. No que à decoração diz respeito, note-se. Ela olhou para mim, olhou para o terraço e suspirou. Manias, deve ter pensado.

Acabei de lhe dizer que as alterações estão concluídas e pode vir verificar. E que o meu terraço já parece outro. Suspirou. Chata, deve ter pensado.
Afinal, só destituí uma planta que estava a ficar a modos que feiosa, e plantei uma hortênsia no seu lugar. Quando ela vir, aposto que vai suspirar. Completamente chanfrada, vai na certa pensar.
Mas a mim, já me parece outro.


Pé de orelha

Deve ter sido há mais ou menos um ano atrás, que o miúdo me veio com esta conversa.
Foi na altura em que a irmã se debatia com a escolha do curso, para o 10º ano. Perguntei-lhe se ele, já tinha pensado nisso, embora soubesse que tinha ainda uns anos para pensar no assunto.


- não mãe, nunca pensei muito nisso, porque eu nem vou fazer o 12º...


Por instantes senti uma apoplexia. Depois recompus-me, e achei que podia ser uma brincadeira.
 
- não mãe, não estou a brincar. É mais ou menos nessa altura que os grandes clubes vêm buscar os grandes jogadores, e eu depois nessa altura não vou ter tempo para grandes estudos...


Tivemos logo ali um pé de orelha. Eu dei o pé. Ele deu a orelha. 

Ontem, a caminho do treino, e um ano volvido, voltámos a falar sobre o assunto.


- Olha mãe, eu sei que tenho de estudar. Eu sei que ser jogador de futebol profissional é muito difícil. Vocês já me explicaram isso tudo. Eu sei. Mas eu quero mesmo, sabes? Eu não me imagino a fazer mais nada. E eu vou estudar, mas o que eu quero é mesmo isto. E por exemplo, vê lá se percebes, eu tenho muitos amigos que jogam comigo, e todos dizem que querem ser jogadores de futebol, mas eu depois vejo o comportamento deles nos treinos e nos jogos, e vou-te dizer, querer... querer... quase nenhum quer, na verdade. Acho que de todos, aqueles que querem mesmo, sou eu e outro. Querer, mesmo a sério, 'tás a ver? Querer com força. É isso. É o que eu quero, e ninguém me vai tirar isso da cabeça. E eu vou esforçar-me sempre bué para conseguir. 


Foi o nosso pé de orelha. Ele deu o pé. Eu dei a orelha.