segunda-feira, 11 de maio de 2015

Enguia

A miúda jantou em casa de uma amiga, na véspera do seu aniversário.

- oh mãe, nem acredito que a minha última refeição antes de fazer dezasseis anos, foi pescada com batata cozida.

Quase que me benzi, minha rica filha, pescada com batata cozida é coisa não entra nesta casa desde que eles eram bebés e não opinavam acerca do menu. Quando muito, cuspiam, em sinal de protesto. 

- oh filha... a sério? deixa lá. 
- oh mãe, mas sabes que até me soube bem? andava com muitas saudades de comer peixe. nunca mais fizeste peixe cá em casa...
- nunca mais fiz peixe? então esta semana já fiz bacalhau, e já fiz salmão!
- não...eu estou a falar de peixe grelhado... por exemplo, nunca mais fizeste enguia, e aquilo é tão bom! tenho mesmo saudades de enguia!

Eu, que ainda não lhe tinha comprado o presente de aniversário, fiquei a pensar seriamente em passar no mercado, no dia seguinte, e embrulhar-lhe um peixe espada bem fresquinho para lhe oferecer. Nunca mais na vida ia confundir um peixe espada, com uma enguia, na certa...  É que nunca pus os cotos numa enguia, quanto mais os dentes...

Só que não. Em vez disso, ofereci-lhe um bikini lindo de morrer, que lhe fica a matar, o anzol perfeito para ela pescar um peixe espada(údo) ou quiçá uma valente enguia. Um erro. Um tremendo erro. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sweet Sixteen

A minha miúda fez dezasseis anos.
Depois  das indecisões relativamente a uma possível festa, ainda me diz que o habitual jantar que preparo no próprio dia, não pode ser com muitos convidados, porque tem teste no dia seguinte e "faz uma coisa pequena, ok?". Perante a responsabilidade demonstrada, cedo. Convido um grupo restrito, família mais chegada, dois casais amigos. Coisa pouca.
Mas a melhor amiga decide organizar uma surpresa e pede a minha ajuda. Convidar os amigos mais chegados a aparecerem de surpresa para jantar. Perante o empenho demonstrado, cedo. De um grupo restrito, passamos a ter mais dez. Depois penso, que de restrito já não tem nada e decido convidar mais umas quantas pessoas que tinha inicialmente em mente. E de coisa pouca, passou a coisa muita.
E a surpresa foi tal, que quando os amigos entraram porta dentro, com dois balões e um magnífico bolo na mão, achei que todo o sangue da miúda se lhe tinha concentrado na face. E ela estava feliz,e não há nada mais gratificante do que ver o sorriso de felicidade estampado no rosto de um filho...

E em modo repost, o que escrevi o ano passado, porque continua a iluminar a minha vida...

Minha querida filha,
Fez ontem dezasseis anos. Fez ontem dezasseis anos que trouxeste luz à minha vida.
Não posso dizer que ainda me parece que foi ontem, porque não me parece. Não é essa a sensação que tenho, quando olho para trás e penso nos dezasseis anos volvidos.
Olho para trás e penso que era uma miúda, ainda.
Uma gravidez não planeada, uma série de acontecimentos novos na minha vida. Tudo de enxurrada. Recordo-me que embora fosse uma experiência totalmente nova e inesperada, vivi a gravidez de uma forma tranquila, sem grandes questões, inseguranças ou medos. Recordo-me de o pai, me ter oferecido uns quantos livros de puericultura, quiçá na esperança que eu me debruçasse sobre os mesmos, quiçá na inquietude da nossa inexperiente juventude.
Os livros, esses, permaneceram intactos sem que lhes tivesse prestado qualquer atenção. A minha serenidade, levava-me a crer que a maternidade era uma coisa intuitiva, e eu saberia cuidar do meu bebé sem o uso dos manuais. Afinal, eu tinha um trabalho de alguma responsabilidade, a faculdade à noite, e outros manuais com que me debruçar.
Esta minha serenidade e intuição, levaram-me a crer inicialmente que tu serias um rapaz. Não que tivesse preferência no sexo, mas era uma intuição. Uma intuição falhada, soube alguns meses mais tarde.
Recordo-me que faltava muito pouco tempo para tu nasceres, quando sonhei contigo pela primeira vez. Sonhei que te tinha nos braços, e que eras loirinha de olhos azuis. E fiquei com a convicção de que eras mesmo assim.
No meu trabalho, vivia rodeada de homens, sendo que eu era a única mulher do meu departamento. Já eu estava  gorda que nem um pote, com dezassete kg a mais em cima do lombo e sentia na maioria deles o pânico de que a qualquer momento eu estaria prestes a explodir. E todos me questionavam o porquê de continuar a trabalhar, uma vez que estava já em fim de tempo. No trabalho do pai, eram as mulheres dos colegas dele que me questionavam esse porquê (julgo que apesar de nenhuma estar prenha, nenhuma delas trabalhava na altura). A mim, fazia-me confusão não o fazer, e entre o trabalho, a faculdade e as lides de casa (algumas lides de casa), ainda fiz o teu enxoval, e foi na minha hora de almoço que comprei o teu berço, a colcha e outros apetrechos, tudo em tons de azul, que na altura tinha a mania que não gostava de rosa (e não, não era por ter tido a intuição de que aí vinha um rapaz, mas esta minha mania anti-rosa que durou muito pouco tempo, acabou por se traduzir numa grande poupança, quando três anos depois nasceu o teu irmão).
Trabalhei portanto até ao ultimo dia. Não planeei o parto, não fiz aulas de preparação, e quando senti chegado o momento fui para o hospital.
Não foram horas fáceis. Nem tão pouco, foram poucas. Durante as treze horas e meia em que esperei pelo tão ansiado momento, o pai , mais nervoso que eu, tentou acalmar-me com festinhas. Garanto-te que quase levou uma chapada em troca. Lembro-me que vociferei umas quantas barbaridades, entre as quais que nunca mais na vida iria ter outro filho.
Quando tu finalmente nasceste e te colocaram nos meus braços, chorei. Mas isso, não deve ser uma novidade para ti. Tu sabes que eu choro. Sabes que choro de cada vez que me emociono e esse foi talvez o momento mais carregado de emoção, em toda a minha vida. Estavas finalmente nos meus braços. E eras exatamente como eu tinha sonhado. Os teus cabelos eram quase brancos de tão loiros que eram. A tua pele era branca, quase transparente. Os teus olhos, tão azuis como o mar.
Tinhas umas mãos e uns pés grandes, coisa que fez com que a tua pediatra nos tivesse feito crer até há bem pouco tempo atrás, de que irias ser alta e espadaúda. Hoje percebemos todos (inclusive ela) que apesar das mãos esguias e dos pés em estilo barbatana, se chegares aos meus míseros cento e sessenta centímetros será uma sorte.
Julgo que a maternidade a levei mesmo por intuição. E grosso modo, não me parece que tenha feito um mau trabalho. Tirando o facto de  não te ter comprado uma chucha anatômica (a inexperiência tem destas coisas ), e de te ter enfiado no primeiro dia com uma chucha tamanho XL pela boca adentro, o que fez com que, quando me tivesse apercebido do erro, tenha sido tarde de mais e te tenha custado (a ti e a mim, em perspectivas diferentes) um ano e meio de aparelho para endireitar a caramalheira toda.
O facto de teres usado chucha durante muito tempo também não ajudou. Mas, também de uma forma intuitiva, deixei que a usasses até quereres (assim como fiz com o teu irmão). Achei por bem não fazer-te passar por esse sofrimento, já que durante meses insistimos na chucha como forma de acalmar, e depois o desmame forçado, pensava eu, devia ser algo difícil e doloroso (pronto, o facto de eu ser fumadora, ajudou nessa minha decisão do "chucha até quereres, que isto do vício é tramado"). Assim, e da mesma forma descontraída e leve com que sempre tens levado a vida, ignoraste até aos seis anos os comentários alheios de que já eras quase uma senhora e que feio era, ainda de chucha, e quando estavas prestes a iniciar o ciclo primário, foste tu quem decidiu que a chucha era uma coisa do passado.
Ao longo destes dezasseis anos, foram várias as vezes que a tua pediatra te apelidou de uma criança feliz. E é assim que eu te vejo. Descontraída, muitas vezes no teu mundo tão próprio, mas feliz.
E é essa felicidade que irradias todos os dias que me enche, que me preenche e me torna uma pessoa feliz. 
Fez ontem dezasseis anos que trouxeste luz à minha vida. 
Love you.

Já venho fora d'horas para falar no dia da mãe?

É que amuei nos últimos dias, e agora que já desamarrei o burro, já me sinto capaz de verbalizar sobre o dito. 

Uns dias antes, na confusão que é a secretária do meu miúdo, e na tentativa de lhe dar um jeito (que mais não é, do que amontoar tudo e encostar a um canto), vislumbro um postal cor de rosa. Uma coisa muito simplória, um "certificado do amor" já "fabricado", onde só estava preenchido com a sua letra, o nome dele. Percebi que logo que algum professor se tinha preocupado com o assunto, já que agora, no terceiro ciclo, um mundo de meninos crescidos, não há cá trabalhos manuais para presentear a mãe neste dia especial. 
Voltei a colocar o referido postal na confusão dos papeis, e esperei que me chegasse às mãos no domingo.

A miúda na véspera do dia da mãe, dá-me um abraço e diz-me que no dia seguinte eu não teria de me preocupar com nada. Que me faria o pequeno almoço, que mo levaria à cama, que faria o almoço, que arrumava a cozinha, e blá blá, pardais ao ninho, e eu pardalita no ninho, de perna cruzada. A ideia animou-me.

No dia seguinte, dia mãe, note-se, sou a primeira a acordar. Ninguém tem culpa disso, pois claro, que estou a ficar a velha, e a cama já não me sabe bem até altas horas da manhã. De seguida, acorda o miúdo. Referencia nenhuma ao dia. Senta-se no sofá, liga a televisão, e vejo-o a chupar pela palhinha, um leite com chocolate. Pardalito mais pequeno, de perna cruzada.  De seguida ouço os pés da miúda a rastejar pelo corredor.  Já eu andava munida de um aspirador, pronta para contrariar o que me tinha sido prometido na véspera. Pouso a lombriga gigante que é o tubo do aspirador central, e digo "bom dia, filha!". Olha para mim, olhos inchados e além do bom dia pergunta-me o que  há para comer. Respondo já em modo "aziada", leite, pão, fiambre, queijo, iogurtes. Agarro na lombriga e aspiro a casa toda como se estivesse a fazer uma maratona de limpeza. E antes que eu expluda, fecham-se os dois a estudar. Faço o almoço, ponho a mesa, sirvo o almoço, almoçamos, oiço "feliz dia da mãe", agradeço, levanto a mesa, e como ninguém se oferece, ordeno "arrumem a cozinha, que eu vou tomar banho". 

Saímos de casa, para o jogo do miúdo, e no regresso atiro para o ar:
- hoje é o dia da mãe, e nem um postalinho, nada?
- não mãe... por acaso não fiz nenhum postal...
- não? nem um?
- não...
- então e um postal cor de rosa que está na tua secretária? não é para mim? quantas mães tens?
- Ah.... Esse... Esse foi a minha professora de escrita criativa que nos deu!!!

Ok. A professora não deve ter dito explicitamente, entreguem isto às mamãs. Está perdoado, Coitadinho do pardalito. Ligo à pardalita irmã, que tinha ficado a estudar e digo-lhe para se arranjar. Vamos jantar com a avó, porque HOJE É DIA DA MÃE, e esta pardala está cansada, e não vai fazer jantar para ninguém.
Salvei assim o dia, ninguém o salvou por mim. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Descobri que sei fazer magia

Aos quarenta anos de idade (bolas, ainda me custa a sair esta entoação "enta") descobri que sei fazer magia. 
A ver:

- mãeeee !! sabes onde estão as minhas calças pretas?
- estão no teu roupeiro!

trinta segundos depois:

- mãeeee !! não encontro!
- procura bem, que estão aí!

trinta segundos depois:

- mãeeee !! já procurei e não estão!

Largo o que estou a fazer, e caminho em passo acelerado, calcanhares quase a bater no rabo, em fúria. Enfio as mãos no roupeiro, e saco das ditas calças pretas. Em menos de dois segundos. E a cena repete-se, diria que quase diariamente. Como o faço quase a espumar pela boca, a miúda num destes dias, após eu ter encontrado umas calças de ginástica que, dizia ela, estavam desaparecidas há séculos, deu-me um abraço e disse "tu realmente mãe, deves ter poderes mágicos..."

Agora:
- mãeeee !! não encontro aquela minha camisola xpto!
- procura que está na gaveta!

trinta segundos depois:
- mãeeee !! podes vir aqui fazer magia?

E mais outro

Bruxa Mimi lançou-me mais um feitiço, ops, queria dizer, desafio. Tenho andado um bocado "arredada" aqui do meu modesto espaço, e antes que estas coisas caiam no esquecimento, cá vai:

7 coisas a fazer antes de morrer
Deixar de fumar (para não morrer do vício)
Voltar à Malásia
Conhecer Portugal de lés a lés
Aprender a gostar de exercício físico
Aprender a gostar de vinho (só porque dizem que faz bem ao coração)
Aprender a dançar

7 coisas que mais digo
Obrigada
Por favor
Bolas
Fonix
Vou pensar
Venham para a mesa!! (importam-se de vir para a mesa??)
Sim? ou Alô (tive que pensar duas vezes na forma como atendo o telefone, e acho que estas são as mais comuns)

7 coisas que faço bem
Cozinhar
Limpar
Arrumar
Conversar (pelos cotovelos)
Ouvir
Comprar
Decoração

7 coisas que não faço bem
Costurar
Engomar camisas (no resto, safo-me com alguma distinção)
Seguir manuais de instruções
Bricolage
Nadar
Andar de bicicleta
Dançar

7 coisas que me encantam
Ver o miúdo jogar futebol
Ver a miúda dançar
Ver a alegria dos meus miúdos
Ouvir as gargalhadas do meu sobrinho
Comezaina com amigos
Passear descontraída
Um gin tónico numa esplanada

7 coisas que não gosto
Mentiras
Ervilhas
Que coisas boas, engordem
Hipocrisia
Cinismo
De ler manuais de instruções
Pescada com batata cozida

Missão cumprida, embora que aldrabada! Não nomeei 7 blogues, mas convido a quem quiser responder!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dos desafios...mais um

A São, que passa a vida a experimentar novidades, para nos dar a conhecer , foi uma querida e voltou a meter-me num desafio. Já participei no mesmo, e para não estar a escrever novamente onze factos sobre mim, vou apenas responder às questões que me colocou :

Cidade Portuguesa Preferida:
Braga. Vivi lá um ano, e apesar de dizerem que é o penico de Portugal, amei.

Avião ou Barco?
Avião. É mais rápido, e eu ando sempre com pressa (que é o mesmo que dizer : atrasada)

Peça Preferida : Saia, calças ou vestido?
Gosto de tudo. Gosto de roupa. Muita, e variada. Por isso, marcha tudo.

Se eu ganhasse o euromilhões...
Quando eu ganhar o euromilhões, vou ajudar tanta gente...

Salto alto ou raso?
Alto. Definitivamente.

Flor preferida
Não tenho uma preferida. Mas gosto de flores brancas. Jarros, rosas, tulipas...

Fruta preferida
Cerejas. Cerejas. Cerejas. Que saudades...

Humor ao acordar
Hum.... Do pior que se possa imaginar. Já tentei inverter a situação, mas, é mais forte do que eu.

Bebida preferida
Gin tónico. Sempre.

O que gostavas mesmo, mesmo de experimentar
Agora é que a porca torce o rabo... Assim de repente, não me ocorre nada...

Agora as nomeações, sendo que as perguntas podem ser estas da São, ou as da Linda Porca, no desafio igual (o link está no início do post)

Boneca (abestelha prá'í)
Cinquentinha (para relatares quando voltares de férias)
Cláudia (se tiveres tempo)
Francisca (aqui ou em Veneza...)
B (para de distraíres)
Maria C. (caso te toque)
Paula ( respondes agridocemente?)


O primeiro beijo

O miúdo tem uma namorada.
Felizmente, não são da mesma escola. Se assim, aquela cabeça já só pensa em tudo menos no estudo, a serem da mesma escola o caldo estaria ainda mais entornado.
O miúdo vai fazer treze, e já tem uma namorada.
Foram ao cinema com um grupo de amigos. 
No carro, de regresso a casa, conta-nos que o amigo estava muito triste, porque uma das amigas lhe roubou um beijo. Pergunto-lhe porque está chateado e ele explica-me:

-Foi o primeiro beijo dele! O primeiro beijo deve ser algo de especial. E foi aquela miúda tem uma baliza nos dentes, 'tás a ver? 

- Então e o filme ? Foi giro? Ou estiveste o tempo todo aos beijos?

- Se quiseres conto-te a história do filme. Mas... eu só sei a história, porque quando cheguei cá fora pedi para me fazerem um resumo ! - Ri-se com ar de malandro.

- O quê? Estiveste mesmo o tempo todo aos beijos? Olha que isso até te pode fazer mal. Podes ficar com a boca cheia de cieiro... -  Engulo em seco, mas ele está bem disposto e falador e decido arriscar:

- Então e o teu primeiro beijo? Foi com esta miúda?

- Não mãe, achas? 

- Ai não? Então foi quando? - Revolvem-se-me as entranhas.

- Foi quando eu tinha uns onze anos - diz-me, como se onze anos fosse uma idade muito longínqua - e foi num daqueles jogos de verdade ou consequência. - Sinto o murro no estômago.

- Ai foi? Então e foi com quem?

- Oh mãe, não achas que estás a querer saber de mais?

- É só mera curiosidade...

- Ai é? Então e tu? Com quantos anos perdeste a virgindade? - Sinto o coração entalado, quiçá preso entre duas costelas, resmungo qualquer coisa relacionado com o facto de ser eu a mãe, nada sem muito sentido, e damos por encerrado o assunto.