terça-feira, 28 de abril de 2015

Gaba-te cesto, que vais à vindima

No carro, a caminho do treino de futebol, miúdo ao meu lado, equipado, pernocas à mostra.
Começa a contrair os músculos, e diz-me:
-Olha-me só esta musculatura, hein? 

Olho-lhe as pernas, ainda despidas de pêlos, mas bem definidas, meu homenzinho pequenino. Tiro uma mão do volante e pouso a mão na sua perna ainda contraída.
-Psst... Tira daqui a mãozinha que isto é propriedade privada...

Sorrio. E ele remata:

- Cada pessoa tem o seu corpo. E as pessoas não se devem queixar do seu corpo, porque cada qual tem o seu. Mas depois há aquelas pessoas assim como eu, que tiveram a sorte de ter um corpinho destes...


 

Adolescência (também) é isto

Ontem, no carro, a caminho da escola:
- Mãe, estou muito preocupada com o teste de fisica/quimica. Percebo aquilo, mas depois há sempre qualquer coisa que me falha nos problemas... para além disso também estou preocupada com a minha festa de aniversário. Estive aqui a pensar, e das duas uma, ou não faço nada, ou faço uma coisa muito pequena só com as minhas amigas mais chegadas. Tipo, só quatro amigas, 'tás a ver? É que é assim, apetecia-me convidar o meu grupo todo de amigos. Mas olha, os rapazes são uns imaturos, infantis, e estão sempre com parvoíces. Tu nem imaginas... Depois apetecia-me convidar imenso pessoal da minha turma do ano passado. Mas depois, separam-se logo todos por grupinhos. Depois não consigo dar atenção a todos. Depois apetecia-me convidar uma ou duas pessoas da minha turma deste ano. Mas depois há outros, que se não forem convidados, ficam melindrados. Por isso, olha, não sei, mas se calhar vamos só cinco amigas sair.

Aí, decido levantar uma ponta do véu:

- Olha filha, eu percebo isso tudo, mas sabes que o teu grupo de amigos se está a juntar para te comprar um presente que é um bocado caro, e depois é chato, terem entrado todos na angariação de fundos para o presente, e deixares mais de metade fora da festa...

- Ai é? Então está decidido. Não faço nada e fica o assunto arrumado.

-Oh filha, mas são os teus dezasseis anos...

- Pois são. E o ano passado foram os meus quinze, e para o ano serão os meus dezassete...

Calei-me, e andei todo o dia assim a modos que angustiada, com o facto da miúda se preocupar com este tipo de coisas, e deixar passar a data em branco, sem qualquer comemoração com os amigos.

Ao fim da tarde, no carro, de regresso a casa:

- Mãe, afinal já me decidi, em relação à minha festa. Não vai ser uma. Vão ser duas. Na sexta, vou com as amigas mais chegadas ao Main, já quase todas temos dezasseis, de certeza que nos deixam entrar,  e no sábado faço uma jantarada com o resto do pessoal todo, ali perto de Santos. Já fiz a lista, somos quarenta e tal. Ah, e já estou a perceber bué de fisica/quimica. 

Da angustia que senti anteriormente, passei para o modo "em choque", do qual padeço até hoje. 


terça-feira, 21 de abril de 2015

Deprimida

Fui buscar a miúdagem à escola. Os meus, e as duas da minha amiga.
As mais velhas lançaram o último tema da aula de filosofia. Debatiam uma das teorias de Kant e a discussão era:

A tua mãe estava numa linha de comboio, prestes a ser atropelada. Tu ias no comboio, e sabias que se mandasses porta fora três gordos que iam na mesma carruagem, o comboio conseguia mudar de linha, e salvavas a tua mãe. O que fazias neste caso?

Fiquei a saber que de toda uma turma, com vinte e três alunos, a minha filha era a única que não me salvava. A única.  Vinte e duas mães salvas e eu  condenada a morrer trucidada por um comboio tresloucado. Quando a miúda me ouviu pela terceira vez - eu agarrada ao volante, ainda em choque a imaginar o cenário - "mas foste a única a não salvar a mãe?", ela justificou:

- Oh mãe, tu já estavas na linha. E os três gordos? Tinham alguma culpa nisso? Então, eu ia sacrificar a vida dos três gordos, completamente inocentes, por ti? E depois? Por muito que eu gostasse de ti, os outros três não tinham culpa nenhuma. Para além disso, o que é tu estavas a fazer na linha do comboio, hã?

Ouvi a versão da amiga:

- O instinto é salvar os nossos. Além disso, se eram gordos, tinham grandes hipóteses de morrer mais cedo por problemas com a obesidade.

- Não te cabe a ti decidir isso - respondeu a minha.

Entretanto, o ex-rei veio cá a casa, e em mais uma conversa com o miúdo acerca do futebol versus escola versus amigos versus namorada, versus prioridades, ele pediu-lhe para desenhar num papel quatro círculos. Cada circulo tinha uma correspondência. Família, futebol, escola, amigos/namorada. O tamanho do circulo de cada um, devia corresponder ao tamanho da importância de cada uma destas coisas, na vida dele. O circulo maior, era o do futebol. Ligeiramente maior do que o da família. 

Se a miúda me mata numa linha férrea, o miúdo chuta-me para canto em prol de uma futebolada.
Agora vou ali deprimir um bocadinho, e já venho.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Golden Boy, Golden Girl

Esta semana dei umas palmadas ao miúdo.
Fica mal dizer que lhe dei uma tareia, dado os trágicos acontecimentos das últimas semanas, mas  o que sinto é que foi uma tareia, mesmo.
Porque não estou habituada a distribuir palmadas, e porque lhe dei umas quantas, ante ontem. Não sei quantas foram, não as contei, porque me foram saindo à medida das respostas dele. Mas sei que me ficou a doer a mão, que mesmo os açoites tendo sido no rabo, aquilo é só pele e osso (e músculo, muito músculo, que ele anda sempre a apregoar que está uma beast ).

 Foi mesmo antes de irmos para a cama, e detesto deitar-me chateada com qualquer um deles. Mas deitei-me, mão a arder, respiração ofegante, a sensação, não de ter dado uma tareia, mas de eu própria ter levado uma tareia.
Sonhei a noite toda, que o miúdo tinha o corpo marcado por consequência daquela (talvez) meia dúzia de palmadas que lhe dei. Foi só um sonho, tenho a certeza que as palmadas  me doeram mais a mim do que a ele. Também tenho a certeza que não é com palmadas que as coisas se resolvem, mas também sei que levei algumas e não morri. E verdade seja dita, que ontem acordou mansinho que nem um cordeiro, mesmo que eu saiba que é sol de pouca dura. E sei, tenho a certeza, que este é um longo caminho a percorrer, que o miúdo tem um feitio do pior, raios, que havia de sair à mãezinha dele.

Por conseguinte, a miúda ontem, andou todo o dia a apregoar ironicamente  que a mãe tinha dado uma tareia ao golden boy, e que viu o caso mal parado. Que por pouco, o golden boy ainda tinha de ir parar ao hospital (e imitava as minhas palmadas, como se de festinhas se tivessem tratado). E que ela, nunca na vida, me tinha respondido da forma como o golden boy me responde.

A minha miúda é sempre muito assertiva na forma como analisa as situações à sua volta. Para além de ser pouco emotiva e muito racional.  Mas denoto uma ligeira ponta de ciúmes relativamente ao irmão. Gerir duas adolescências tão distintas, também não é fácil. E já lhe disse que sou a mãe com mais sorte do mundo. Porque não só tenho um golden boy, como tenho a melhor golden girl que algum dia podia imaginar. Fez-me "pfff", em género está bem, abelha. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Segurar a vela

A propósito do post de ontem e porque vinha no carro com os meus miúdos e as miúdas amigas deles, filhas de um casal amigo meu, e vinha a tentar organizar o fim do meu/nosso dia, porque não tinha ajuda para os transportes, e os meus miúdos tinham compromissos distintos em locais distintos à mesma hora. E no momento cancelámos a explicação da miúda, reagendámos a mesma para outro dia, e eu vinha a dizer-lhes o quão difícil é organizar a agenda de três gatos pingados como nós.
E a minha miúda sai-se com esta:

- Oh mãe tu tens é de arranjar um namorado. Qualquer dia nós saímos de casa, tu ficas velha e só, e isso deve ser muito triste.

E eu ri-me, e o meu miúdo soltou:

-Yá. Mesmo.

E uma das amigas, a mais velha, da idade da minha, disse:

- Que estupidez. A tua mãe não fica sozinha. Tem sempre a minha mãe e o meu pai.

E o meu miúdo rematou:

-Sim. Muito bonito. A segurar a vela eternamente. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Vida social

A minha vida social, está claramente cada vez mais agitada.
Consigo aperceber-me deste facto não só pelo conta quilómetros do meu carro e consequentemente a quantidade de vezes que visito a bomba de gasolina para abastecer, mas também pelo facto de por vezes ter de calcular ao milímetro o tempo que vou gastar entre um percurso e outro, para poder fazer tudo a seu tempo.
Assim, tenho dividido o tempo entre dois campos de futebol, que o miúdo agora além de treinar no clube da aldeia, também treina num clube lisboeta. Soma quatro treinos por semana, sendo que o de lisboa me obriga a permanecer por mais de duas horas à espera de sua excelência. Mas, se o miúdo tem futebol, a miúda tem dança. O que obriga à sua deslocação também. Ah, e depois têm Cambridge. E em dias e escolas diferentes, por uma questão de logística de cada um deles. E depois ele tem jogos, sábados e domingos de manhã. E ela tem explicações de matemática. E depois têm as idas ao cinema com os amigos e ela tem as saídas ocasionais à noite, e têm os jantares de aniversários, e têm amigos a dormir cá em casa, e têm dormidas em casa de amigos. E eu levo e trago, e recebo e cozinho para um batalhão, e de repente já me baralho com os horários, e de repente hoje não me consigo dividir entre o futebol e a explicação, e alguma coisa vai ter de ser cancelada, e depois disto tudo ainda faço e dou jantar, e são onze da noite quando finalmente me sento no sofá, e penso que a minha vida social está completamente condenada a ser a vida social dos meus filhos. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Há coisas que não podem ser delegadas

Já houve quem me dissesse que sou uma autêntica fada do lar.
Na verdade, gosto da maioria das tarefas caseiras, embora haja uma que me deixa mesmo lixada. As meias. As putas das meias, que tendem a desaparecer das gavetas enquanto o diabo esfrega um olho (" mãeeeee !! não tenho meias!"). As putas das meias que tendem a desaparecer aos impares e que me questiono seriamente para onde vão parar já que, o molho das desemparelhadas cresce a olhos vistos e ainda no outro dia deitei um saco cheio delas, para o lixo.
Mas, um dia desta semana, quando abri a porta de casa ao ex-rei e ao miúdo, acabados de chegar do treino, estava eu com um alguidar na mão atolado delas (das putas das meias) surgiu-me a ideia. Assim a modos que luminosa. Num ápice passei o testemunho, e larguei o alguidar nas mãos do ex-rei. 

- Vá, tenho uma tarefa para vocês. Enquanto eu acabo o jantar, vocês emparelham estas meias. 

Foi um instante enquanto eles me devolveram o alguidar, cheio de bolas pretas. Fiquei tão contente que enquanto as arrumava nas gavetas, só pensava que esta era uma tarefa que eu já sabia a quem delegar. E que o meu martírio das meias havia chegado ao fim.
Ontem, ao fim do dia, a miúda disse-me :

-Oh mãe, tu importas-te de nunca mais dares as meias ao pai e ao mano para dobrar? É que tu não imaginas. Desembrulhas aquilo, e não há um par certo! E até há meias azuis misturadas com meias pretas!

O miúdo olha para mim com ar de traquina, levanta as duas pernas das calças, e mostra-me, diria mesmo, com orgulho:

-Olha lá como é que eu fui para a escola hoje!

Num pé, uma meia pézinho. No outro uma que lhe tapava meia canela.