quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Linda porca meteu-me nisto, e só por ser ela, cá vai

Uma pessoa tem dias, e eu tenho andado naqueles dias em que, primeiro : não tenho tido muito tempo para vir aqui. Segundo: não me tem apetecido muito vir aqui. Mas, o desafio foi lançado pela jeitosa da Linda Porca, e vá-se lá saber porquê, que nunca a vi mais gorda (um dia, podia jurar que a tinha visto, num desses centros comerciais suburbanos, mas ela depois afiançou-me que não, e caiu por terra a ideia de já a ter vislumbrado em carne e osso), mas engrancei com ela, desde o primeiro dia em que a li (foi com ela e com a Uva, foi a modos que amor à primeira leitura) e como tal, não a posso deixar ficar mal, que até me senti lisonjeada com tamanho desafio. Por isso cá vai :
A "coisa" consiste em: 

Escrever 11 factos sobre nós próprios.
Responder às perguntas que nos colocaram.
Nomear 11 blogs com menos de 200 seguidores.
Fazer 11 perguntas a esses blogs nomeados.
Colocar a foto do Liebster Award no post e respectiva tag.
Enviar o link do post a quem te nomeou.

Liebster-Award1.jpg
Então, a ver: 11 factos sobre mim:
1- Acordo sempre ligeiramente rabugenta (diz que ligeiramente é quase um elogio, mas eu continuo a achar que é exagero)

2- Tive um crescimento muito tardio, e por isso fui a última das minhas amigas a arranjar namorado, facto que me levou a viver uma adolescência algo complexante (hoje percebo que não me fez falta nenhuma. o namorado).

3- Com o crescimento tardio, mas depois, repentino, houve uma perna, que ainda preguiçosa, se deixou ultrapassar pela outra. Assim, sou mais alta de um lado, do que do outro, cerca de centímetro e meio. Mas não coxeio, e por isso, este é um defeito de fabrico que até passa despercebido.

4- Sei que isto é um cliché, mas a minha grande obra prima, são mesmo as minhas crias. São os dois do mais bonito que há. Tão bonitos que até dói. Mesmo que ao cliché alguém possa acrescentar  o provérbio de quem feio ama, bonito lhe parece. Mas é que os miúdos são mesmo bonitos. E acima de tudo, por fora e por dentro (foi cliché do princípio ao fim). 

5- Sou loira, mas não sou burra. Embora às vezes possa parecer que sou. Mas como sou uma loira falsa, quando sou burra, também sou uma burra falsa. Ou não. 

6- Não sou surda, mas tenho um ouvido estrábico. Facto que me leva muitas vezes a parecer surda. Mas não sou. Tenho é tendência para ouvir os sons do lado contrário de onde eles são emitidos. Do género: alguém me chama uns metros à esquerda, e eu olho imediatamente para a direita. E a pior cena que me aconteceu à conta deste meu (outro) defeito, foi uma manhã, em que enverguei umas lindas calças de pele, e o raio das calças faziam um som tipo saco de plástico conforme eu me ia mexendo (e não eram de plástico, eram mesmo de pele, ou então fui enganada, porque ao preço que custaram, até deviam ter costuras de ouro). Vai daí, de cada vez que dava um passo, olhava para trás. Eu estava sozinha em casa. E havia algo a perseguir-me. E era um saco de plástico. Eu podia jurar que estava a ser perseguida por um saco de plástico. Foram momentos de terror que não desejo a ninguém.

7- Aos vinte e tal anos, altura em que já tinha idade para ter juízo, furei o umbigo. Aos trinta e sete, achei que já não tinha idade para piercings e tirei-o. Três dias depois, e antes que o buraco se fechasse para todo o sempre, a minha filha disse-me que a minha barriga já não parecia a minha. E pediu-me que o pusesse de novo. E eu, que sentia exactamente o mesmo, caguei na idade e hoje, aos quarenta, ostento um belo piercing umbilical. E só o tiro no dia que vir que já não tenho uma barriga digna de o usar (a comer assim, deve estar para breve). Constatei também, que a minha filha teve um rasgo inteligente, porque uma mãe com um piercing, não tem moral para negar um à filha ( a sorte é que só tenho um. e que nunca me deu para a maluqueira das tatoos).

8- Esta porra dos 11 factos sobre mim, está a ficar um bocado comprida. Vou abreviar. Assim com´á assim, não interessa nada.
Gosto de comer. Petiscos, todos. Desde o pezinho de coentrada, aos caracois (tanto, tanto). Ah, e adoro uma bela sandocha de coirato. Com pêlo e tudo. 

9- Sou boa rapariga, ou pelo menos, gosto de pensar que sim. Ou pelo menos, acho que sim. Também sei ser cabra quando me pisam os calos. Mas isso raramente acontece, se calhar porque, dizem-me, sou muito boazinha e gosto de ver toda a gente na paz (de Cristo).


10- Já tive muitos sonhos, concretizei a maioria deles. Um dia acordei num pesadelo, e desde então desaprendi de sonhar.

11- Já chega, não?

Ufa, Linda Porca, que isto cansa. Vou responder às tuas perguntas. Só mesmo porque foste tu. Bolas. Vá, bora lá a isto:

1- Como é que vieste aqui parar?
Olha, nunca fui de andar em blogues, nem de navegar muito por essa internet (a)fora. Mas tinha duas pessoas amigas com quem trocava muitas mensagens e emails, e às vezes tínhamos conversas tão parvas que elas diziam-me insistentemente que eu devia ter um blogue. Nunca pensei muito nisso, até porque não acho que escreva ao nível de muitos dos que sigo, mas um dia, olha, apeteceu-me. O nome foi escolhido pelas razões que lá descrevo (porque sempre contei muitas histórias aos miúdos, onde incluía sempre uma rainha e os seus príncipes, que éramos nós, em género "era uma vez uma rainha que tinha uma princesa e um príncipe, que não gostavam de sopa... e era sempre um castigo para comerem sopa. Até que foram ficando muito magrinhos, com falta de vitaminas, e blá blá...". Havia sempre um ensinamento inerente. No caso da sopa, confesso que a rainha não ganhou a batalha e ainda hoje, mas de outra forma, sem rainhas e fadas e castelos, me oiço a berrar nas vitaminas e na falta delas, e no raio da sopa que estrabucham para comer.  Noutros casos até acho que foi pedagógico e que serviu para alguma coisa). E pronto, criei a Rainha e a Ervilha, sem grandes floreados, que eu não tenho paciência nenhuma para me aventurar nas artes informáticas, e quando não tenho paciência, funciono à lei do menor esforço. 

2- Onde é que achas que isto vai dar?
Achei que o blogue iria servir um dia, em género de diário, para os meus miúdos virem ler as parvoíces que escrevo deles. Talvez nunca me venham a perdoar, mas olha, se calhar um dia acabo com isto, e esfumam-se as palavras e as letras que vou creditando aqui, e que na verdade, também não interessam nada. Esse, acho que é o futuro mais plausível. 

3- Diz-me como te relacionas com a bicharada.
Qual bicharada? A minha? Tenho um cão, se é essa a categoria de bichos a que te referes. Relaciono-me de uma forma muito formal. Não lhe pego, não lhe dou beijos, não o deixo lamber-me. Isso são afectos que os miúdos lhe dão e de sobra. Às vezes a ponto de me deixarem com ciúmes. O meu miúdo por exemplo, não me dá beijos, não me abraça, e no entanto até beija o cão na boca. Também lhe dou uns gritos (ao cão), quando ele me prega uma mijadela nos cortinados do meu quarto. Uns gritos e uma palmada no lombo. Tento não ser muito bruta, não vá matar o bicho, que é uma amostra de cão (valha-me isso, que o xixi é ao nível do tamanho dele).
Se falas de outra bicharada, olha, tenho tendência a dar-me bem com toda a espécie. Sou boazinha. Já tinha dito, não já?

4- Diz-me o que é que tens à cabeceira.
Queres ver? 
Ao estilo minimalista (que é tudo, menos o estilo da minha casa), tenho apenas a iluminação e aquela bela peça decorativa azul. Se quiseres copiar o estilo, estás à vontade. Chama-se ventilan, e vende-se em qualquer farmácia perto de si (para mais informações, consulte o seu médico ou farmacêutico, ou a rainha).

5- Qual foi o momento mais idiota da tua vida?
Talvez aquele em que entrei no velório errado. E não via ninguém conhecido e todas as cabeças voltadas para mim, e eu a pensar a quem dirigir os sentimentos, e de mansinho, pé ante pé me abeirei da urna e percebi a gaffe. E de mansinho, pé ante pé, mas à retaguarda, dei de frosques.

6- Qual a tua técnica preferida para sair de cena?
Sou péssima nisso. Mesmo. Uma dificuldade atroz. Em jeito de "boazinha" , o problema sou eu, não és tu . Mas nem sempre resulta, porque não o faço à bruta. Então, vou-me afastando lentamente, muito lentamente, até que... saio de cena de vez.

7-Quando precisas mesmo de ter tomates para enfrentar uma sit, o que é que fazes?
Arranjo os tomates e enfrento. Sem pensar muito na questão. 

8- Tens mesmo que desligar uma chamada de telemóvel, mas a outra pessoa, com quem não tens intimidade nenhuma, não se cala. Agora conta lá.
Tão fácil. A questão da rede funciona sempre. E depois desliga-se o telefone cerca de dez minutos para o caso da dita pessoa voltar a ligar, a cena da rede parecer credível. Também tenho outra técnica, se estiver em casa, faço sinal a um dos meus miúdos para me chamar. Assim, em altos berros mesmo : "mãeeeeee". Se a pessoa não se tocar, sou obrigada a dizer que tenho um filho em aflição. Ninguém resiste a um filho em aflição.

9-Estás aflitinho/a para cagar em plena primeira vez com alguém. Agora desemerda-te.
Isso jamais me aconteceria. A não ser que fosse desarranjo intestinal. Uma diarreia gigante, mesmo. É que eu não cago em qualquer lado. Tem de ser na minha sanita, em silêncio e ninguém pode falar comigo sob pena de o dito voltar para trás. E quando estou fora do meu ambiente o meu intestino (que é esperto, o gajo), sabe logo. Então, tímido na quinta casa, retrai-se. E chego a estar dias sem cagar. Uma tragédia, porque como sou boa boca, parar de comer está fora de questão. Então, conforme os dias vão aumentando, a barriga cresce a olhos vistos. Ora barriga de três meses, ora de quatro, e quando cresce ao nível dos cinco, estou prestes a largar merda pelas orelhas. 

10 - Vai um touro a correr atrás de ti escadas acima. O que é que fazes?
Os touros sobem escadas? Não me parece...

11 - Conta-nos tudo, não nos escondas nada. A mim dá-me miminhos, mas graxa não, a menos que seja azul.
Agora assim de repente, e depois de ter revelado o meu trauma intestinal no que à cagança diz respeito, não me ocorre mais nada.
Miminhos, já levaste a tua dose no início desta conversa toda.
Já chega.

Agora, correndo o risco de estar a nomear alguém repetido, cá vai. É que tenho tido pouco tempo e pouca paciência (já disse), e tenho andado ausente e pronto. 
Ah, e pelas razões atrás descritas e mesmo parecendo (sendo) pouco criativo, as questões colocadas podem ser as mesmas da Porquita Linda. 
Os nomeados então:
P




segunda-feira, 6 de abril de 2015

Diferenças entre a infância e a adolescência

Diferenças, há muitas. 
Mas esta, está a sair-me cara.

Na infância do meu miúdo (que eu juro, foi há uns dias atrás):

-Miúdo, vai tomar banho!
- Oh mãe... mas porquê? ainda ontem tomei!

Na adolescência do meu miúdo:

- Mas vais tomar banho outra vez? Mas tu agora tomas dois banhos por dia?
- Sim, estou a sentir-me sujo... (que é a tradução para: " tenho de ajeitar o cabelo")




quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobremesa

De quando em vez, encontro, nos sítios mais inusitados, uma unha. 
Em cima da playstation, colada ao ecrã da televisão, num cantinho da mesa de centro da sala, dentro da lombada de um livro...
No outro dia resolvi perguntar. 

- Mas porque raio é que eu encontro unhas escondidas pela casa fora?

Resposta do miúdo:

-Ah, isso sou eu que guardo, quando tu me chamas para jantar, para o caso de me apetecer a seguir.

(em género de sobremesa, concluo)



E a avaliar o estado destes dedos, percebe-se o porquê de ter de fazer reservas...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Página falsa

A minha relação com o facebook foi sempre algo distante. Nunca criámos uma amizade profunda, nem partilhei com ele grandes intimidades. Nunca lhe mostrei fotos das iguarias que ingiro diariamente (ninguém ia gostar de ver a quantidade de pacotes bolachas que são comidos à noite, no sofá), nem lhe mostrei os pés enterrados na areia do algarve, nem os jarros de sangria por essas esplanadas fora. Não. A nossa relação até teve por base conseguir controlar a conta dos meus filhos. Mas a verdade, é que não controlamos nada. Por muitos conselhos e regras que coloquemos, não há forma de controle total. Porque as fotos de capa são sempre públicas, porque os amigos se multiplicam, mesmo que só se conheçam de vista. 
Mas, os miúdos também foram crescendo, e a sangria desatada de ir a toda a hora ao facebook, foi substituída pela sangria desatada do instagram. Vai daí, a minha relação com o facebook ficou mais distante ainda.
Foi ontem, que através de um amigo da minha miúda,  descobri existir uma página falsa, com fotos dela, e o mesmo nome. As fotos, todas as que ela tinha usado como capa. 
Abri uma a uma, e constatei a popularidade desta miúda, que é a minha, mas não é a minha. Milhares de likes em todas as fotos, contra as poucas centenas da miúda que é a minha, a original. 
Dezenas de comentários, todos tão abonatórios, relativamente à sua beleza  e aos seus olhos  e outros tantos de revolver as entranhas a uma mãe (que lhe faziam e lhe aconteciam?), que vê exposta a sua miúda, nas mãos de uma outra miúda (falsa). 

A situação resolvi em três minutos apenas. Denunciei, e num ápice a página foi eliminada. E aqui, dou a mão à palmatória. Os gajos do face, foram rápidos e eficientes (com tamanha rapidez, julgo que nem tiveram tempo de averiguar, como me disseram que iam fazer. Deram o acto como consumado, e ponto. Finito. A miúda falsa, e os seus milhares de likes, esfumaram-se). 

O amigo da minha miúda, que descobriu a página falsa, disse apenas que a conclusão a que chegava era que a outra devia ser feia.
A minha miúda, apagou as fotos de capa (que eram públicas), disse que já nem ligava muito ao face, e como tal, assunto encerrado.
Eu acho que embora avisemos constantemente dos perigos, eles não têm noção real.

terça-feira, 31 de março de 2015

Desabafo

A minha miúda, esta, que está quase da minha altura (embora coitada, sofra por ser baixa, e ainda não ter chegado aos meus míseros cento e sessenta centímetros), esta miúda, que está quase nos dezasseis, está a ficar ligeiramente refilona. É uma refilíce ligeira, bem sei, que nem me devia queixar desta santa adolescência. Mas a juntar à mega refilíce do irmão, ele numa adolescência precoce, que chegou sem aviso prévio, é coisa para me colocar os nervos em franja. 
Pronto. Foi só um desabafo. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Sinceridade/Honestidade

Reunião de notas do segundo período.
Com a miúda, nada de surpresas. Conseguiu o tal "feito escadinha" 12,13,14,15,16,17,18.
O miúdo teve mais um 3, do que o esperado. Para abrir a pestana. 
Tirando o facto do miúdo continuar irrequieto, distraído, e falador, está tudo bem, dizem-me. E sempre com uma resposta pronta, na ponta da língua. Mas educado. Valha-me isso.
Sento-me, e converso com ele. A conversa do costume, que tem de se aplicar mais, blá, blá, pardais ao ninho. E por fim, a conversa sobre o acontecimento, a alemão:

- Então filho, explica-me lá o que se passou na aula de alemão. Ouvi dizer que a professora no dia que entregou os testes, e porque as notas foram tão más, perguntou à turma quem não gostava de alemão, e tu foste o único a pôr o braço no ar...

- Sim. Mas a professora disse para sermos honestos e sinceros. E eu fui único a ser honesto e sincero. Ou tu achas que alguém gosta de alemão? Ninguém! Nós nem tivemos hipótese de escolher outra língua. Fomos obrigados a ter alemão! E aquilo é difícil como tudo!

- Então e depois a professora pergunta quem é que acha que o alemão lhe prejudica a vida, e tu voltas a ser o único a pôr o braço no ar?

- Então, oh mãe, que é que tu achas? Eu tinha acabado de receber o teste! Tive negativa! Desci de um 88%, para um 43%! Comecei logo a pensar que vocês se iam chatear comigo! 

- Sim filho, mas tu não podes dizer que aprender alemão te prejudica a vida...

- Então mas não era para sincero? Eu já estava a pensar no castigo que aí vinha. Vê lá se não tive razão? Prejudicou-me a vida, e de que maneira...   

como é que eu explico ao miúdo que há alturas na vida que mais vale estar calado, e guardar a porra da honestidade e sinceridade só para si?


quinta-feira, 26 de março de 2015

Agradecer, a vida.

Foi há uns anos, em Moçambique, numa viagem de Maputo a Nampula.
Ouvia-se na altura, que os aviões da LAM não eram seguros, que não tinham as revisões obrigatórias, razões pelas quais deixaram de fazer voos para Lisboa. E nesse dia, não íamos na LAM. O voo era de uma outra companhia local, que, imagine-se, tinha apenas dois aviões, e um deles estava já parado por avaria. Nunca pensei muito nestas observações que me faziam. Tinha de lá ir, e positiva, pensava, vai correr tudo bem.

O voo era tipo autocarro, com uma série de escalas. Até ao meu destino final, faríamos duas paragens intermédias. Saíamos de Maputo, parávamos na Beira, depois em Quelimane, e finalmente em Nampula. Depois da paragem em Quelimane, e quando o avião tinha acabado de descolar, ouviu-se um estrondo enorme. Foi tudo muito rápido. Os gritos aflitivos dos passageiros, o cheiro a queimado, a descolagem abortada, as rodas no chão, a travagem abrupta. Não foram minutos, foram segundos. Não tive tempo de pensar em nada, recordo-me apenas de sentir o coração na garganta.
Quando saí do avião e vi o buraco gigante no reactor do avião, provocado por uma águia suicida, pensei nos meus filhos em Lisboa, na minha família, na morte.

A viagem de Quelimane a Nampula acabou por ser feita no mesmo dia, num pequeno avião fretado por uma das pessoas que nos acompanhava. Recordo-me de sermos doze passageiros, com o piloto treze. O avião tinha apenas nove lugares. O piloto olhou para nós, olhou para a quantidade de bagagem e anunciou que não havia lugares para todos, e que a bagagem teria de ser pesada. Recordo-me do burburinho à volta da questão, recordo-me de ter amaldiçoado o meu trabalho que me levava a tão longínquas paragens, e recordo-me do piloto nos ter mandado embarcar. A todos. E a toda a bagagem. Positiva, pensei, vai correr tudo bem.
Dormi a viagem toda.
E correu tudo bem.

Uns dias depois jantei com um comandante da Tap, que ao ouvir o sucedido nos disse que teríamos de ir a Fátima acender uma vela em sinal de agradecimento. Que a pista de Quelimane era a mais pequena do país, e que foi uma sorte o piloto não a ter usado toda para descolar, e não ter de aterrar já no mato mais à frente, onde nos iríamos despenhar, e com a quantidade de combustível que o avião ainda continha para prosseguir viagem, o cenário teria sido aterrorizador (e eu, não estaria aqui, na certa, para contar a história).

O medo de andar de avião, tornou-se relativo. Meti na cabeça que as probabilidades de voltar a ter um incidente aéreo seriam escassas,  embora soubesse que esta minha teoria era também muito relativa. Continuei por isso a viajar, nas mais variadas companhias aéreas (incluindo as moçambicanas), positiva, pensava, vai tudo correr bem, e dormia.

Hoje, de cada vez que vejo mais uma tragédia na aviação, penso que tenho de ir outra vez a Fátima, acender uma vela, e agradecer pela vida.