Foi há uns anos, em Moçambique, numa viagem de Maputo a Nampula.
Ouvia-se na altura, que os aviões da LAM não eram seguros, que não tinham as revisões obrigatórias, razões pelas quais deixaram de fazer voos para Lisboa. E nesse dia, não íamos na LAM. O voo era de uma outra companhia local, que, imagine-se, tinha apenas dois aviões, e um deles estava já parado por avaria. Nunca pensei muito nestas observações que me faziam. Tinha de lá ir, e positiva, pensava, vai correr tudo bem.
O voo era tipo autocarro, com uma série de escalas. Até ao meu destino final, faríamos duas paragens intermédias. Saíamos de Maputo, parávamos na Beira, depois em Quelimane, e finalmente em Nampula. Depois da paragem em Quelimane, e quando o avião tinha acabado de descolar, ouviu-se um estrondo enorme. Foi tudo muito rápido. Os gritos aflitivos dos passageiros, o cheiro a queimado, a descolagem abortada, as rodas no chão, a travagem abrupta. Não foram minutos, foram segundos. Não tive tempo de pensar em nada, recordo-me apenas de sentir o coração na garganta.
Quando saí do avião e vi o buraco gigante no reactor do avião, provocado por uma águia suicida, pensei nos meus filhos em Lisboa, na minha família, na morte.
A viagem de Quelimane a Nampula acabou por ser feita no mesmo dia, num pequeno avião fretado por uma das pessoas que nos acompanhava. Recordo-me de sermos doze passageiros, com o piloto treze. O avião tinha apenas nove lugares. O piloto olhou para nós, olhou para a quantidade de bagagem e anunciou que não havia lugares para todos, e que a bagagem teria de ser pesada. Recordo-me do burburinho à volta da questão, recordo-me de ter amaldiçoado o meu trabalho que me levava a tão longínquas paragens, e recordo-me do piloto nos ter mandado embarcar. A todos. E a toda a bagagem. Positiva, pensei, vai correr tudo bem.
Dormi a viagem toda.
E correu tudo bem.
Uns dias depois jantei com um comandante da Tap, que ao ouvir o sucedido nos disse que teríamos de ir a Fátima acender uma vela em sinal de agradecimento. Que a pista de Quelimane era a mais pequena do país, e que foi uma sorte o piloto não a ter usado toda para descolar, e não ter de aterrar já no mato mais à frente, onde nos iríamos despenhar, e com a quantidade de combustível que o avião ainda continha para prosseguir viagem, o cenário teria sido aterrorizador (e eu, não estaria aqui, na certa, para contar a história).
O medo de andar de avião, tornou-se relativo. Meti na cabeça que as probabilidades de voltar a ter um incidente aéreo seriam escassas, embora soubesse que esta minha teoria era também muito relativa. Continuei por isso a viajar, nas mais variadas companhias aéreas (incluindo as moçambicanas), positiva, pensava, vai tudo correr bem, e dormia.
Hoje, de cada vez que vejo mais uma tragédia na aviação, penso que tenho de ir outra vez a Fátima, acender uma vela, e agradecer pela vida.