quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobremesa

De quando em vez, encontro, nos sítios mais inusitados, uma unha. 
Em cima da playstation, colada ao ecrã da televisão, num cantinho da mesa de centro da sala, dentro da lombada de um livro...
No outro dia resolvi perguntar. 

- Mas porque raio é que eu encontro unhas escondidas pela casa fora?

Resposta do miúdo:

-Ah, isso sou eu que guardo, quando tu me chamas para jantar, para o caso de me apetecer a seguir.

(em género de sobremesa, concluo)



E a avaliar o estado destes dedos, percebe-se o porquê de ter de fazer reservas...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Página falsa

A minha relação com o facebook foi sempre algo distante. Nunca criámos uma amizade profunda, nem partilhei com ele grandes intimidades. Nunca lhe mostrei fotos das iguarias que ingiro diariamente (ninguém ia gostar de ver a quantidade de pacotes bolachas que são comidos à noite, no sofá), nem lhe mostrei os pés enterrados na areia do algarve, nem os jarros de sangria por essas esplanadas fora. Não. A nossa relação até teve por base conseguir controlar a conta dos meus filhos. Mas a verdade, é que não controlamos nada. Por muitos conselhos e regras que coloquemos, não há forma de controle total. Porque as fotos de capa são sempre públicas, porque os amigos se multiplicam, mesmo que só se conheçam de vista. 
Mas, os miúdos também foram crescendo, e a sangria desatada de ir a toda a hora ao facebook, foi substituída pela sangria desatada do instagram. Vai daí, a minha relação com o facebook ficou mais distante ainda.
Foi ontem, que através de um amigo da minha miúda,  descobri existir uma página falsa, com fotos dela, e o mesmo nome. As fotos, todas as que ela tinha usado como capa. 
Abri uma a uma, e constatei a popularidade desta miúda, que é a minha, mas não é a minha. Milhares de likes em todas as fotos, contra as poucas centenas da miúda que é a minha, a original. 
Dezenas de comentários, todos tão abonatórios, relativamente à sua beleza  e aos seus olhos  e outros tantos de revolver as entranhas a uma mãe (que lhe faziam e lhe aconteciam?), que vê exposta a sua miúda, nas mãos de uma outra miúda (falsa). 

A situação resolvi em três minutos apenas. Denunciei, e num ápice a página foi eliminada. E aqui, dou a mão à palmatória. Os gajos do face, foram rápidos e eficientes (com tamanha rapidez, julgo que nem tiveram tempo de averiguar, como me disseram que iam fazer. Deram o acto como consumado, e ponto. Finito. A miúda falsa, e os seus milhares de likes, esfumaram-se). 

O amigo da minha miúda, que descobriu a página falsa, disse apenas que a conclusão a que chegava era que a outra devia ser feia.
A minha miúda, apagou as fotos de capa (que eram públicas), disse que já nem ligava muito ao face, e como tal, assunto encerrado.
Eu acho que embora avisemos constantemente dos perigos, eles não têm noção real.

terça-feira, 31 de março de 2015

Desabafo

A minha miúda, esta, que está quase da minha altura (embora coitada, sofra por ser baixa, e ainda não ter chegado aos meus míseros cento e sessenta centímetros), esta miúda, que está quase nos dezasseis, está a ficar ligeiramente refilona. É uma refilíce ligeira, bem sei, que nem me devia queixar desta santa adolescência. Mas a juntar à mega refilíce do irmão, ele numa adolescência precoce, que chegou sem aviso prévio, é coisa para me colocar os nervos em franja. 
Pronto. Foi só um desabafo. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Sinceridade/Honestidade

Reunião de notas do segundo período.
Com a miúda, nada de surpresas. Conseguiu o tal "feito escadinha" 12,13,14,15,16,17,18.
O miúdo teve mais um 3, do que o esperado. Para abrir a pestana. 
Tirando o facto do miúdo continuar irrequieto, distraído, e falador, está tudo bem, dizem-me. E sempre com uma resposta pronta, na ponta da língua. Mas educado. Valha-me isso.
Sento-me, e converso com ele. A conversa do costume, que tem de se aplicar mais, blá, blá, pardais ao ninho. E por fim, a conversa sobre o acontecimento, a alemão:

- Então filho, explica-me lá o que se passou na aula de alemão. Ouvi dizer que a professora no dia que entregou os testes, e porque as notas foram tão más, perguntou à turma quem não gostava de alemão, e tu foste o único a pôr o braço no ar...

- Sim. Mas a professora disse para sermos honestos e sinceros. E eu fui único a ser honesto e sincero. Ou tu achas que alguém gosta de alemão? Ninguém! Nós nem tivemos hipótese de escolher outra língua. Fomos obrigados a ter alemão! E aquilo é difícil como tudo!

- Então e depois a professora pergunta quem é que acha que o alemão lhe prejudica a vida, e tu voltas a ser o único a pôr o braço no ar?

- Então, oh mãe, que é que tu achas? Eu tinha acabado de receber o teste! Tive negativa! Desci de um 88%, para um 43%! Comecei logo a pensar que vocês se iam chatear comigo! 

- Sim filho, mas tu não podes dizer que aprender alemão te prejudica a vida...

- Então mas não era para sincero? Eu já estava a pensar no castigo que aí vinha. Vê lá se não tive razão? Prejudicou-me a vida, e de que maneira...   

como é que eu explico ao miúdo que há alturas na vida que mais vale estar calado, e guardar a porra da honestidade e sinceridade só para si?


quinta-feira, 26 de março de 2015

Agradecer, a vida.

Foi há uns anos, em Moçambique, numa viagem de Maputo a Nampula.
Ouvia-se na altura, que os aviões da LAM não eram seguros, que não tinham as revisões obrigatórias, razões pelas quais deixaram de fazer voos para Lisboa. E nesse dia, não íamos na LAM. O voo era de uma outra companhia local, que, imagine-se, tinha apenas dois aviões, e um deles estava já parado por avaria. Nunca pensei muito nestas observações que me faziam. Tinha de lá ir, e positiva, pensava, vai correr tudo bem.

O voo era tipo autocarro, com uma série de escalas. Até ao meu destino final, faríamos duas paragens intermédias. Saíamos de Maputo, parávamos na Beira, depois em Quelimane, e finalmente em Nampula. Depois da paragem em Quelimane, e quando o avião tinha acabado de descolar, ouviu-se um estrondo enorme. Foi tudo muito rápido. Os gritos aflitivos dos passageiros, o cheiro a queimado, a descolagem abortada, as rodas no chão, a travagem abrupta. Não foram minutos, foram segundos. Não tive tempo de pensar em nada, recordo-me apenas de sentir o coração na garganta.
Quando saí do avião e vi o buraco gigante no reactor do avião, provocado por uma águia suicida, pensei nos meus filhos em Lisboa, na minha família, na morte.

A viagem de Quelimane a Nampula acabou por ser feita no mesmo dia, num pequeno avião fretado por uma das pessoas que nos acompanhava. Recordo-me de sermos doze passageiros, com o piloto treze. O avião tinha apenas nove lugares. O piloto olhou para nós, olhou para a quantidade de bagagem e anunciou que não havia lugares para todos, e que a bagagem teria de ser pesada. Recordo-me do burburinho à volta da questão, recordo-me de ter amaldiçoado o meu trabalho que me levava a tão longínquas paragens, e recordo-me do piloto nos ter mandado embarcar. A todos. E a toda a bagagem. Positiva, pensei, vai correr tudo bem.
Dormi a viagem toda.
E correu tudo bem.

Uns dias depois jantei com um comandante da Tap, que ao ouvir o sucedido nos disse que teríamos de ir a Fátima acender uma vela em sinal de agradecimento. Que a pista de Quelimane era a mais pequena do país, e que foi uma sorte o piloto não a ter usado toda para descolar, e não ter de aterrar já no mato mais à frente, onde nos iríamos despenhar, e com a quantidade de combustível que o avião ainda continha para prosseguir viagem, o cenário teria sido aterrorizador (e eu, não estaria aqui, na certa, para contar a história).

O medo de andar de avião, tornou-se relativo. Meti na cabeça que as probabilidades de voltar a ter um incidente aéreo seriam escassas,  embora soubesse que esta minha teoria era também muito relativa. Continuei por isso a viajar, nas mais variadas companhias aéreas (incluindo as moçambicanas), positiva, pensava, vai tudo correr bem, e dormia.

Hoje, de cada vez que vejo mais uma tragédia na aviação, penso que tenho de ir outra vez a Fátima, acender uma vela, e agradecer pela vida.


Fio de ... back

Ao telefone com o contabilista, e já no fim da conversa, ele atira-me com esta:
- Ok Rainha, então quando puder dê-me um fio de back.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Um braço negro

A minha amiga, que vive mesmo por cima de mim, toca-me à porta, entra-me casa dentro, num rompante.
- Anda cá. Tens de ver isto. Estou tão preocupada...
Despe a camisola, e põe-se muito direita, de braços juntos.
- Olha lá. Que é que vês de diferente nos meus braços?
- Hummm.... Tens um braço negro. 
- Tenho, não tenho? Será que vou ter um avc?

Faço o que sempre fazemos, de cada vez que se nos surge uma questão de saúde. Ligo para o nosso doutor de triagem, que é o meu ex-rei, que não é médico nem nada que se pareça, mas que teria dado um, e dos bons, caso se tivesse interessado pelos estudos, em vez de se ter interessado por uma bola, e que tem um jeito danado para estas coisas.
Explico-lhe o sucedido. Faz-me mil perguntas, como se estivesse na linha saúde 24.

Bateu em algum lado? - não.
Está todo negro? - todo. de alto a baixo.
Mas tem aspecto de hematoma - tem. mas um hematoma gigante.
Tem tido problemas de circulação? - que saiba, não.
Tem dores? - não. nada.

Feitas as questões que achou pertinentes, disse-me:
- Não faço ideia do que seja. Ela que vá ao hospital.

A minha amiga vai para casa com o veredicto do meu ex-rei, nosso médico de triagem, e meia hora depois toca-me à porta e entra-me casa dentro, num rompante.
- Tu queres acreditar que estava já eu pronta para sair, e lembrei-me das axilas. Despi a camisola, agarrei numa gilete, e não é que uma gota de água escura me começa a escorrer braço abaixo?

Conclusão, a camisolinha preta que envergava, modelito nova coleção da Primark, tinha-lhe tingido daquela forma um só braço. E foi graças à penugem axilar que se evitaram uns quantos exames no hospital, umas quantas horas perdidas no mesmo, e a vergonha de passar por badalhoca perante o médico de serviço.