terça-feira, 31 de março de 2015

Desabafo

A minha miúda, esta, que está quase da minha altura (embora coitada, sofra por ser baixa, e ainda não ter chegado aos meus míseros cento e sessenta centímetros), esta miúda, que está quase nos dezasseis, está a ficar ligeiramente refilona. É uma refilíce ligeira, bem sei, que nem me devia queixar desta santa adolescência. Mas a juntar à mega refilíce do irmão, ele numa adolescência precoce, que chegou sem aviso prévio, é coisa para me colocar os nervos em franja. 
Pronto. Foi só um desabafo. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Sinceridade/Honestidade

Reunião de notas do segundo período.
Com a miúda, nada de surpresas. Conseguiu o tal "feito escadinha" 12,13,14,15,16,17,18.
O miúdo teve mais um 3, do que o esperado. Para abrir a pestana. 
Tirando o facto do miúdo continuar irrequieto, distraído, e falador, está tudo bem, dizem-me. E sempre com uma resposta pronta, na ponta da língua. Mas educado. Valha-me isso.
Sento-me, e converso com ele. A conversa do costume, que tem de se aplicar mais, blá, blá, pardais ao ninho. E por fim, a conversa sobre o acontecimento, a alemão:

- Então filho, explica-me lá o que se passou na aula de alemão. Ouvi dizer que a professora no dia que entregou os testes, e porque as notas foram tão más, perguntou à turma quem não gostava de alemão, e tu foste o único a pôr o braço no ar...

- Sim. Mas a professora disse para sermos honestos e sinceros. E eu fui único a ser honesto e sincero. Ou tu achas que alguém gosta de alemão? Ninguém! Nós nem tivemos hipótese de escolher outra língua. Fomos obrigados a ter alemão! E aquilo é difícil como tudo!

- Então e depois a professora pergunta quem é que acha que o alemão lhe prejudica a vida, e tu voltas a ser o único a pôr o braço no ar?

- Então, oh mãe, que é que tu achas? Eu tinha acabado de receber o teste! Tive negativa! Desci de um 88%, para um 43%! Comecei logo a pensar que vocês se iam chatear comigo! 

- Sim filho, mas tu não podes dizer que aprender alemão te prejudica a vida...

- Então mas não era para sincero? Eu já estava a pensar no castigo que aí vinha. Vê lá se não tive razão? Prejudicou-me a vida, e de que maneira...   

como é que eu explico ao miúdo que há alturas na vida que mais vale estar calado, e guardar a porra da honestidade e sinceridade só para si?


quinta-feira, 26 de março de 2015

Agradecer, a vida.

Foi há uns anos, em Moçambique, numa viagem de Maputo a Nampula.
Ouvia-se na altura, que os aviões da LAM não eram seguros, que não tinham as revisões obrigatórias, razões pelas quais deixaram de fazer voos para Lisboa. E nesse dia, não íamos na LAM. O voo era de uma outra companhia local, que, imagine-se, tinha apenas dois aviões, e um deles estava já parado por avaria. Nunca pensei muito nestas observações que me faziam. Tinha de lá ir, e positiva, pensava, vai correr tudo bem.

O voo era tipo autocarro, com uma série de escalas. Até ao meu destino final, faríamos duas paragens intermédias. Saíamos de Maputo, parávamos na Beira, depois em Quelimane, e finalmente em Nampula. Depois da paragem em Quelimane, e quando o avião tinha acabado de descolar, ouviu-se um estrondo enorme. Foi tudo muito rápido. Os gritos aflitivos dos passageiros, o cheiro a queimado, a descolagem abortada, as rodas no chão, a travagem abrupta. Não foram minutos, foram segundos. Não tive tempo de pensar em nada, recordo-me apenas de sentir o coração na garganta.
Quando saí do avião e vi o buraco gigante no reactor do avião, provocado por uma águia suicida, pensei nos meus filhos em Lisboa, na minha família, na morte.

A viagem de Quelimane a Nampula acabou por ser feita no mesmo dia, num pequeno avião fretado por uma das pessoas que nos acompanhava. Recordo-me de sermos doze passageiros, com o piloto treze. O avião tinha apenas nove lugares. O piloto olhou para nós, olhou para a quantidade de bagagem e anunciou que não havia lugares para todos, e que a bagagem teria de ser pesada. Recordo-me do burburinho à volta da questão, recordo-me de ter amaldiçoado o meu trabalho que me levava a tão longínquas paragens, e recordo-me do piloto nos ter mandado embarcar. A todos. E a toda a bagagem. Positiva, pensei, vai correr tudo bem.
Dormi a viagem toda.
E correu tudo bem.

Uns dias depois jantei com um comandante da Tap, que ao ouvir o sucedido nos disse que teríamos de ir a Fátima acender uma vela em sinal de agradecimento. Que a pista de Quelimane era a mais pequena do país, e que foi uma sorte o piloto não a ter usado toda para descolar, e não ter de aterrar já no mato mais à frente, onde nos iríamos despenhar, e com a quantidade de combustível que o avião ainda continha para prosseguir viagem, o cenário teria sido aterrorizador (e eu, não estaria aqui, na certa, para contar a história).

O medo de andar de avião, tornou-se relativo. Meti na cabeça que as probabilidades de voltar a ter um incidente aéreo seriam escassas,  embora soubesse que esta minha teoria era também muito relativa. Continuei por isso a viajar, nas mais variadas companhias aéreas (incluindo as moçambicanas), positiva, pensava, vai tudo correr bem, e dormia.

Hoje, de cada vez que vejo mais uma tragédia na aviação, penso que tenho de ir outra vez a Fátima, acender uma vela, e agradecer pela vida.


Fio de ... back

Ao telefone com o contabilista, e já no fim da conversa, ele atira-me com esta:
- Ok Rainha, então quando puder dê-me um fio de back.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Um braço negro

A minha amiga, que vive mesmo por cima de mim, toca-me à porta, entra-me casa dentro, num rompante.
- Anda cá. Tens de ver isto. Estou tão preocupada...
Despe a camisola, e põe-se muito direita, de braços juntos.
- Olha lá. Que é que vês de diferente nos meus braços?
- Hummm.... Tens um braço negro. 
- Tenho, não tenho? Será que vou ter um avc?

Faço o que sempre fazemos, de cada vez que se nos surge uma questão de saúde. Ligo para o nosso doutor de triagem, que é o meu ex-rei, que não é médico nem nada que se pareça, mas que teria dado um, e dos bons, caso se tivesse interessado pelos estudos, em vez de se ter interessado por uma bola, e que tem um jeito danado para estas coisas.
Explico-lhe o sucedido. Faz-me mil perguntas, como se estivesse na linha saúde 24.

Bateu em algum lado? - não.
Está todo negro? - todo. de alto a baixo.
Mas tem aspecto de hematoma - tem. mas um hematoma gigante.
Tem tido problemas de circulação? - que saiba, não.
Tem dores? - não. nada.

Feitas as questões que achou pertinentes, disse-me:
- Não faço ideia do que seja. Ela que vá ao hospital.

A minha amiga vai para casa com o veredicto do meu ex-rei, nosso médico de triagem, e meia hora depois toca-me à porta e entra-me casa dentro, num rompante.
- Tu queres acreditar que estava já eu pronta para sair, e lembrei-me das axilas. Despi a camisola, agarrei numa gilete, e não é que uma gota de água escura me começa a escorrer braço abaixo?

Conclusão, a camisolinha preta que envergava, modelito nova coleção da Primark, tinha-lhe tingido daquela forma um só braço. E foi graças à penugem axilar que se evitaram uns quantos exames no hospital, umas quantas horas perdidas no mesmo, e a vergonha de passar por badalhoca perante o médico de serviço.

Santinho Versus Más Infuências

Era uma vez, numa terra não muito distante, duas amigas, com filhos da mesma idade. Os filhos mais novos, eram os melhores amigos. Eram da mesma turma, frequentavam a casa um do outro, passavam férias juntos. Só que as amigas tinham algumas formas diferentes de ver a educação das suas crias, e por vezes os ânimos exaltavam-se quando cada uma expunha a sua opinião. Um dos meninos era muito sossegado e de parcas palavras, o outro era um espalha brasas e extrovertido do pior. De modo que, de cada vez que a mãe do menino sossegado ouvia queixas dos professores acerca do seu menino sossegado, nunca queria acreditar que assim fosse, porque o seu menino era um santinho. A mãe do menino espalha brasas quando ouvia queixas dos professores, chegava a casa e repreendia o menino. Quando estas situações começaram a ser recorrentes, nitidamente sentiu-se um afastamento. E a mãe do menino espalha brasas, percebeu que a mãe do menino sossegado sentia que havia ali más influências. 
De modo que, de cada vez que o menino más influências convidava o menino santinho para ir a sua casa (vamos chamar-lhes assim), havia sempre uma desculpa para adiar o encontro.

Um dia, tinham um trabalho de grupo para fazer. A mãe do más influencias tenta organizar o encontro para se efectuar o trabalho, e mãe do santinho diz que não há necessidade, que têm muito que estudar durante o fim de semana, e algo se há-de arranjar. Ao fim do dia, mãe do más influências recebe por email o trabalho já feito, para que más influências possa olhar para ele, e apresentar no dia seguinte. Mãe do más influências resolve não se chatear com o assunto, embora olhe para um PowerPoint elaborado, ao nível de um décimo segundo ano, quiçá de uma faculdade, e constata que a elaboração do mesmo foi feito pelo pai do menino santinho.

Semanas depois, novo trabalho de grupo. Mãe do más influências mais uma vez tenta organizar o encontro, e mãe do santinho diz que não vale a pena, que se divide o trabalho ao meio, e cada uma (das mães) faz uma parte. Mãe do más influências exalta-se, diz que não anda na escola e que a parte do más influências será ele a fazer e que um trabalho de grupo tem claramente o intuito de aprenderem a trabalhar em grupo, organizar ideias consensuais, e blá blá. Mãe do santinho não gosta, chateia-se e amarra o burro.

Cada um dos meninos faz metade do trabalho em separado, chegam à escola, juntam as metades numa cartolina, e claramente a bota não bate com a perdigota. 
Mãe do menino santinho de burro amarrado, deve ter feito de propósito, e o filho apresenta uma metade de trabalho desta feita, não ao nível de um décimo segundo, não ao nível de uma faculdade, mas ao nível de um primeiro ciclo.
Professor olha para a obra de arte, e como é seu apanágio, quando tem algo a apontar negativamente a um trabalho, chama o elemento mais fraco do grupo e pede explicações (por elemento mais fraco, entenda-se com pior nota).

Professor : "Menino más influências, chegue-se aqui por favor"
Menino más influências, levanta-se perante o olhar de toda uma turma, e aproxima-se do professor que empunha a cartolina.
Professor: "Ora explique-me lá, menino más influências, como é que temos aqui uma metade de trabalho tão bem feita - aponta para a parte dele - e deste lado uma metade tão, mas tão fraquinha?"

Menino más influências podia ter respondido "olhe professor, porque não tivemos oportunidade de nos juntar, e eu fiz esta metade e o menino santinho fez esta de merda."

Podia. Mas não o fez. Menino más influências olhou o professor, e respondeu:
"Peço desculpa professor. Para a próxima fazemos melhor".

A mãe do menino más influências ouviu isto, constatou que o professor ficou a ideia de que a parte má do trabalho teria sido o menino espalha brasas más influências a fazer, perguntou ao filho o que ele achava, o filho respondeu "claro que sim, que ele acha que fui eu que fiz aquilo, mas querias o quê? que eu fosse dizer que fizemos em separado, e que eu tinha feito a parte melhor? isso seria muito mau para o meu amigo, e ele é o meu melhor amigo".
Mãe do menino más influências sente orgulho no filho, embora sinta a injustiça (mas de injustiças está o mundo cheio), quanto à mãe do menino santinho não se sabe o que terá concluído daqui (nem se soube o final da história) porque amarrou o burro até aos dias que correm...
FIM



terça-feira, 24 de março de 2015

Todos de castigo

Embora ainda não tenham saído as notas do segundo período, os miúdos já sabem o resultado final. 
A miúda, conseguiu alcançar um feito, tipo escadinha. Vai ter 12, 13, 14, 15, 16, 17, e  18 a educação física (que infelizmente - no caso dela - não conta para a  média ).

O miúdo vai ter um único 5 (  educação física, claro...), uns quantos 4, e três 3.
Chatearam-me os 3. Porque sei que com esforço e dedicação seria aluno de tudo 5. Porque sei que com algum esforço e dedicação seria aluno de tudo 4. E porque sei que os 3 que vão aparecer na pauta, foram o resultado de nenhum esforço, nenhuma dedicação. E isso, chateia-me. Para além de que, se no primeiro teste de alemão teve 88%, no segundo trouxe-me a primeira negativa do ano (43%), porque "já sabia tudo, aquilo é básico, não preciso estudar".

Vai daí, eu e o ex-rei, decidimos  ter uma conversa com o miúdo e implementar o castigo. Durante as férias, pode usufruir de duas horas diárias do telemóvel, playsation e ipad. Ele escolhe o horário, e até pode reparti-lo. Mas não mais de duas  horas de tecnologias. E vai ter de ler um livro, estudar matemática e alemão. Está liberto do estudo aos fins de semana.

Após esta conversa, que decorreu à hora de almoço de domingo, e sendo que o castigo entrou em vigor a partir desse momento, o miúdo pegou numa bola. Dez minutos depois, olhei para o ex-rei e confessei "não sei se vou ter força suficiente para levar o castigo à risca". Ele riu-se, perante o barulho ensurdecedor da bola a bater na parede. Meia hora depois, olhei para o tempo. Ameaçava chover, e estava um frio do caraças. Mandá-lo para a rua pontapear a bola estava fora de questão. E arrisquei:
- então filho? não queres gastar as duas horas agora?
- não. vou guardá-las mais para o fim do dia. 

E assim se castigou uma família inteira por três notas medianas. Para a próxima, acrescento a bola às tecnologias.