segunda-feira, 23 de março de 2015

Celebração




O miúdo fez durante dias, semanas, talvez meses, uma pesquisa exaustiva. 
Eu via-o, de volta desta pesquisa, sem perceber ainda o verdadeiro significado.
Depois da pesquisa,  e após ter seleccionado aqueles que achou mais interessantes, começou a treinar em casa. E foi quando o vi, a esbracejar para trás e para frente, a saltar de uma maneira e doutra, ou mesmo a atirar-se de joelhos no chão, que percebi. O miúdo tinha pesquisado várias celebrações de golos dos seus jogadores de eleição, e estava a escolher a forma de ele próprio celebrar um golo.
Mas não seria num qualquer. Tinha de ser um golo especial.

Este fim de semana, foi o dia.
O miúdo marcou um golo (um senhor golaço - sem falsas modéstias) e celebrou.

-mãe, tu viste o meu golo?
-vi. claro que vi. foi um bom golo.
-e viste a minha celebração?
-vi. foi gira.
-foi gira? aquilo foi mesmo à pró. Foi mesmo uma grande prózada. É a do Neymar. Queres ver?

Saca do telemóvel, e mostra-me. Vejo que foi uma cópia exacta, tirando a parte em que o Neymar após celebrar o golo, ainda dá uns passos de dança. Percebo que a pesquisa exaustiva, quiçá ao nível de uma tese, foi posta em prática de forma exemplar.

-mãe, tu sabes que quando eles celebram com um beijo aqui (dá um beijo no dedo anelar), é porque estão a dedicar o golo à sua noiva?
- noiva, ou mulher, ou namorada...sim, sei. porquê? tu não sabias?
-não. só descobri há pouco tempo...

Ainda bem que descobriu a tempo. Celebrar com um beijo no anelar  a achar que era uma grande prózada, seria vergonha para o traumatizar para o resto da vida.




sexta-feira, 20 de março de 2015

Do Eclipse...

Não vi.
Disseram-me que era melhor não olhar, que aquilo era coisa para afectar os olhinhos, e eu, bem mandada que sou, não olhei.



E enquanto foi dia do pai, para mim foi dia de tia

O Sobrinho ouviu dizer que a tia (euzinha) lhe tinha comprado uma revista do Panda.
Vai daí, pediu aos pais durante dias  para ir para casa da tia (euzinha).
A tia (euzinha), oferece-se para tirar o dia, e tomar conta do sobrinho.
O sobrinho chega, ainda o dia não clareara como deve ser, e a tia (euzinha) dá-lhe a revista do Panda.
O sobrinho olha a revista com um certo desânimo e articula no seu portunhol "já li cum mãe, e cum pai".
A tia (euzinha) não se dá por vencida, o que não deve faltar é merchandising do animal do canal quarenta (já nem me lembrava do que era ter a televisão em altos berros todo o santo dia no canal panda, bonecada a falar, intercalado com o raio dos parabéns, que isto dizem que a natalidade está em crise, mas o que não falta aí é miudagem a fazer anos), e diz ao sobrinho que vamos já tratar do assunto, e comprar uma nova revista.

Saímos para levar os miúdos à escola. Entra no carro, senta na cadeira, põe cinto.
Deixamos os miúdos na escola e vamos tomar o pequeno almoço. Tira o cinto, sai da cadeira, sai do carro. Caminhamos em passo caracol, o passo à medida das suas pernitas.
Voltamos a entrar no carro, senta na cadeira, põe cinto.
Vamos comprar a revista. Outra vez a cadeira, o cinto, bolas, que já não me lembrava disto.
Chegamos a casa. Olho para ele. Está com uma gadelha de todo o tamanho. Uma franja capaz de o pôr estrábico em três tempos (devo estar a ficar velha, já pareço a minha mãe). Arrisco uma rebocada da minha irmã, e o ódio silencioso do meu cunhado (não terá coragem de me desancar, caso não goste do corte). Decido, saímos de casa. Entra no carro, senta na cadeira, põe cinto. Chegamos ao cabeleireiro. Tira o cinto, sai da cadeira, sai do carro.
O miúdo porta-se lindamente enquanto eu vejo as tesouradas e temo uma descasca eminente da minha irmã com pêlo na venta, quando vir o filho sem pêlo na tóla.


Para o choque não ser grande, envio fotos à irmã e ao cunhado do novo look, via mensagem. Assim, terão tempo de mastigar a questão. Voltamos a casa, e ando constantemente atrás dele e a ver onde está. Pergunto-me como fazia quando os meus eram assim, pequeninos. E eram dois.

Quando dou conta, o sobrinho tem a boca cheia de chocolate. Pergunto-me onde foi buscar o raio do kinder, e vejo-lhe a mochila aberta. Ligo para a minha irmã. "o miúdo acabou de comer um chocolate". A minha irmã informa-me que já passou uma hora da hora habitual do seu almoço. Estava com fome.
Desenrascado, o miúdo. Está almoçado, pensei.
E estava mesmo. O almoço, mandou-mo comer a mim.

Vamos aos baloiços. Cheira-me a cocó.
Cocó? - penso. Bolas, esqueci-me da mochila das fraldas.
Falso alarme. Ufa, foi só um pum.
O dia chegou ao fim. Constatei mais uma vez que este sobrinho é um santo. Nem uma birra, nem uma queixa, sempre bem disposto embora de uma antipatia extrema com estranhos (quem os manda  tentar fazer gracinhas? "ah, cutchi cutchi, tão lindo...olá! cu-cu!")
E sendo o sobrinho tão fácil de aturar, pergunto-me como sobrevivi à maratona do veste casaco, despe casaco, senta nas cadeiras, aperta cintos, pega ao colo (e quantas vezes peguei nos dois em simultâneo, um em cada anca) a juntar aos atritos e brigas que  tinham um com o outro, e aos gritos, e ao choro, e a tudo, tudo, o que já passou, e de que até me esqueci...

A vantagem daquele tempo, é que a avaliar as dores nos braços de que padeço hoje, naquela altura não havia cá preocupações com o músculo do adeus. Velhos tempos que já lá vão...

Nota: O corte de cabelo não suscitou grande drama parental. Ou pelo menos não ouvi queixas. Já o meu miúdo, olhou para o novo look do primo e reclamou comigo : "então tu foste cortar o cabelo ao primo, e deixaste-o ficar com este corte ? atão os tios ainda não se aperceberam que o miúdo vai ser gozado para o resto da vida na escola se continuar com este cabelo, e tu não fizeste nada por isto? devias ter rapado ligeiramente dos lados, e deixavas uma poupa em cima! "








quinta-feira, 19 de março de 2015

E porque hoje é dia do pai # II




E porque hoje é dia do pai

O meu ex-rei liga-me e diz "hoje é dia do pai, vou agora ao colégio dar um beijinho aos miúdos".
Meia hora depois liga-me às gargalhadas:

"Queres-te rir um bocadinho? Cheguei aqui e disse ao miúdo: vim cá dar-te um beijinho, sabes que dia é hoje? - e ele olha para mim e responde-me:

-Naaaa... Não me apanhas nessa...Não fazes anos, que os teus anos são em outubro...

E eu começo-me a rir e digo-lhe que vou ligar à mãe para ela se rir um bocadinho, e ele às gargalhadas diz:

- O quê ? Não me digas que a mãe te ligou a pensar que fazias anos hoje!!!"

E depois da gaffe, ainda teve a distinta lata: "ah, é dia do pai? então leva-me ao macdonald's! está-me mesmo a apetecer. é que aposto que o que trago aqui na lancheira é o resto do caril do jantar..."








quarta-feira, 18 de março de 2015

Rascunhos

Enquanto tentava organizar o emaranhado de papéis que jaziam sobre a secretária do meu miúdo, encontrei três rascunhos de um texto pedido para a disciplina de escrita criativa.

O primeiro rezava assim:
"Era uma vez uma criança que era muito triste pois tinha um grande sonho que os pais não aceitavam, e que era ser jogador de futebol" 
E ficou por aqui, julgo eu, por ter equacionado a gravidade do discurso em si. É que nitidamente a história não é ficção, e ainda a professora nos acusava de estar a castrar os sonhos ao miúdo, e quiçá nos batia a segurança social à porta e nos arrancava o filho. E depois ainda nos teríamos de debater em nossa defesa, e angariar testemunhas abonatórias   que pudessem atestar que vamos levar e buscar o miúdo a todos os treinos, assim como as manhãs de sábado e domingo são passadas a assistir aos seus jogos. E que apenas o tentamos alertar para a importância da escola e do estudo.

O segundo rascunho:
"Era uma vez uma criança, que tinha o sonho de ser jogador de futebol, mas ele era muito pequenino para a sua idade, todos eram altos e espadaúdos , mas ele era muito pequeno e com muitos ossos " Temo novamente a segurança social. O Rapaz está traumatizado.  Nitidamente a minha voz a ecoar no seu subconsciente : "tens de comer tudo que és só pele e osso! e depois queixas-te que não cresces! qualquer dia vais-me parar a uma cama de um hospital, subnutrido"

O terceiro rascunho:
"Era uma vez uma criança muito forte e muito alta (sorrio e penso "aqui, já deu o pulo"), que tinha um grande sonho que era ser como o seu pai, ou melhor ainda. Queria mesmo ser um grande jogador de futebol. Tinha doze anos e já tinha um grande jeito para jogar. Mas para além do futebol, tinha tempo para estudar (WHAT?), para a família (hummm...) e para o amor (WHAT THE FUCK?). Era uma criança muito responsável com a escola (sinto-me a ventilar), muito simpática com a família (ataque de asma eminente ) mas desta vez estava muito triste, pois tinha sido convidado para jogar e estudar nos Estados Unidos com uma bolsa de estudo, mas não sabia o que fazer pois a sua namorada estava em Lisboa (sinto-me a ter uma síncope).


terça-feira, 17 de março de 2015

Um bem haja à Uva Passa e à magistrada aqui do lado

Aqui por bandas deste reino, já está tudo lavadinho e cheiroso.
Contadores de água novinhos em folha, situação reposta ao final do dia ontem. A parte burocrática segue à posteriori. Cada morador terá de fazer uma queixa individual na policia ("então Senhora Rainha? o que lhe roubaram?" o contador da água, senhor agente. o contador da água...) para que o custo do dito possa ser imputado à seguradora, que aquilo ainda é coisa para custar alguns mil réis.

Já a situação estava resolvida , encontrei na rua uma vizinha. 
- ai que isto hoje foi uma tragédia. Fui para o tribunal toda mal lavada"  - mal lavada? , pensei, esta tinha dodots, na certa...
- isto foi o gangue do cobre. não sei se sabe, mas eu sou magistrada, e tenho lá muitos casos destes... - Sim, magistrada, eu sei, porque de cada vez que me encontra, faz questão de me enfiar a magistratura pelos olhos adentro, mesmo que só troquemos dois dedos de conversa de circunstância. 

À conta disto tudo, e à conta da conversa com a minha amiga Uva Passa, fui sonhar a noite toda, que estava eu, ela - a Uva - e a vizinha magistrada, na piscina. E elas faziam piscinas, graciosamente, para a frente e para trás, ora bruços, ora mariposa, enquanto eu nadava à cão, só até meio da piscina, que é até onde tenho pé, que eu para fora de pé, tenho a sensação que me afogo. E elas riam, e gozavam comigo, e faziam piscinas quais sereias, agora de costas, a seguir crawl, e falavam de audiências, e tribunais e gozavam o meu estilo à cão, enquanto eu, de orgulho ferido me aventurava cada vez mais para fora de pé. Acordei suada, e com uma crise de asma, no momento em que me afogava, e já acordada, ainda conseguia ouvir as gargalhadas estridentes das duas.

E é graças a elas - à senhora juiza, magistrada, e à minha cara amiga Uva Passa - que envergo hoje umas olheiras até ao pescoço. Obrigadinhas, tá? Um bem haja.