quinta-feira, 12 de março de 2015

Pedalar não é a minha praia

Querida Gaja Maria, a propósito desta nossa troca de galhardetes/confissões, aqui vai mais um segredo. Mas shiuuu, não contes a ninguém...

Eu não sei andar de bicicleta...

Ou pelo menos, e se isto salvaguarda um pouco a minha já diminuída reputação nas artes desportistas, eu ACHO que não sei. Corria a década de oitenta (anos dourados que já lá vão), e passava eu férias no monte dos meus avós, quando me aventurei em cima de uma bicicleta. Nunca tinha pensado em pedalar, eu era mais correr, e leve que nem uma pena, ainda que com asma, mas ainda sem vestígios de nicotina, corria que nem uma gazela. Mas o meu primo tinha acabado de receber uma bicicleta novinha em folha, último grito da moda, e mesmo gazela na corrida, era difícil acompanhar a pedalada dele. Foi então que anunciei aos meus avós que uma bicicleta talvez me desse um certo jeito. Trataram do assunto no próprio dia, que isto avós que são avós, fazem as vontades todas aos netos. Segui o meu avô até ao celeiro, e eis que vislumbrei aquela que seria a minha primeira e única bicicleta. Um exemplar de mil novecentos e troca e passo, outrora pertencente a uma prima, que era só uma dúzia de anos mais velha do que eu. Não me importei com as teias de aranha com que estava sobejamente decorada, nem com os vestígios de ferrugem circundantes. Montei-me em cima da dita, e sem ajuda alheia, comecei a pedalar. Pedalei o dia inteiro. Estrada abaixo, estrada acima, no momento de curvar toca a pôr os pés no chão, que não se podia pedir mais para um primeiro dia (nem uma queda, nem um joelho esfolado).

No segundo dia, e assim que o galo cantou, saltei da cama entusiasmada com o novo velho brinquedo. E aí, é que a porca torceu o rabo. Não aguentava as dores nas "partes baixas" vulgo pipi, perdi um dia de férias de correria e aventura, voltei a colocar a bicicleta no lugar de origem, e decidi fazer o resto das férias a correr que nem gazela. Foi assim,  no cimo dos meus doze ou treze anos que concluí "pedalar não é para mim". 


quarta-feira, 11 de março de 2015

Digno de registo

Já tentei por diversas vezes juntar-me a esse grande número de fãs do ginásio. Inscrevi-me, perto do escritório, num desses grandes famosos e caros, no tempo das vacas gordas , ia à hora de almoço, PT contratada tempo das vacas gordas, mesmo!, fazia a aula a correr, tomava duche a correr, mil cuidados para não apanhar humidade no cabelo apanhava sempre, e saía a correr, cabelo a modos que desgrenhado, maquilhagem a modos que esborratada, enfiava a correr uma sandes no bucho , e voltava ao trabalho, com os músculos amassados e doridos. Foi sol de pouca dura. Paguei os restantes meses de fidelização sem pôr lá os pés e dei o assunto por arrumado.

Cometi o mesmo erro por diversas vezes em anos posteriores. Experimentei pilates. Experimentei aulas sincronizadas, mas descoordenada por natureza, (todo um grupo a dar dois passos à esquerda, eu a dar dois passos à direita) dei-me por vencida e em época de vacas magras  optei pelas caminhadas. Viver no campo, ainda que quase colada à metrópole, tem esta vantagem. Poder exercitar (vivo na ilusão que caminhar é exercício) enquanto inspiro ar puro (depois de ter entupido os pulmões em nicotina, e de ter respirado toda a poluição dessa grande avenida da liberdade), oiço passarinhos, e vejo a bicharada.


(não percebi se era puro acto de amor, o sapo a carregar a sapa, ou se era puro acto de copulação. qualquer um dos dois, achei digno de registo)

terça-feira, 10 de março de 2015

Porra!

A porra do autoclismo está avariado há mais de seis meses.
E é daqueles que estão enfiados na porra da parede.
Andei dias a tentar descobrir a porra da torneira de segurança.
"a falta que faz a porra de um homem, numa casa"
Chamei o homem da minha irmã. Percebemos a única maneira de neutralizar litradas de água pela porra da sanita abaixo. 
E nestes últimos seis meses, abre-se e fecha-se a torneira da porra do autoclismo, conforme a necessidade, com uma chave de fendas tamanho XL.
E hoje de manhã, ainda meio a dormir, e antes de conseguir abrir a porra da torneira, depois de ter feito a porra do primeiro chichi da manhã, deixei cair a chave de fendas, dentro da porra da sanita.
E apesar da porra do mijo chichi que já há aqui porras que cheguem ser meu, foi coisa para me arrancar logo um vómito seguido de "a falta que faz a porra de um homem, numa casa".
Porra, que tenho de arranjar um homem. Mas um homem que seja a porra de um canalizador, que me resolva o problema, e que se ponha na porra da alheta.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Onde há fumo...há fumo.

A miúda foi ver Hardewell ao Meo Arena. 
Eu estiquei-me no sofá, a dormitar levemente enquanto as horas passavam à espera de a receber sã e salva, ainda que exausta.
A miúda chegou, às três e meia da manhã, sã e salva, exausta, e esfomeada.

- Ai mãe, tinha tanta fome, tanta fome, e cheirava tanto a fumo, e vários tipos de fumos, se é que me entendes, que às tantas aquilo já me cheirava a pizza, e eu olhar para os lados "mas onde é que estão a fazer pizzas?"

e eu ainda ontem lhe trocava as fraldas e lhe besuntava aquele rabo com halibut...


quinta-feira, 5 de março de 2015

Dinossauro

Vá-se lá saber porquê, mas este post da Linda Porca,  fez-me lembrar, que há uns anos, era o meu miúdo muito mais miúdo do que é agora, e ia fazer anos. Uns cinco, talvez. E adorava brincar com animais. Aqueles animais de plástico, ou borracha, ou sei lá, que custavam os olhos da cara na imaginário, e que ele tinha às toneladas. Três caixas de plástico daquelas do Ikea, à tulha daquela brincadeira. E espalhava-os todos, em carreirinha, qual selva, pela casa fora (velhos tempos que já lá vão, e que só não deixam saudades pela desarrumação constante, e porque não era simpático, ai não, que não era, pisar de quando em vez um daqueles bichos, que aquilo doía, ai que doía).
Ora que o miúdo fazia anos, e uma amiga que convidei para o jantar de comemoração de tão importante dia, me liga já atrasada para o dito, em pleno centro comercial.
- O que é que eu ofereço ao miúdo?
- Sei lá. Compra-lhe um animal. Um daqueles, que se vendem nessas lojas que têm animais, sei lá... (eu sei, eu sei que também não fui muito explicita, mas estava no meio de um cozinhado, e a "coisa" saiu-me assim)
- Mas que animal?
-Sei lá... Pode ser um dinossauro...

Chega-me a casa com um saco da Zara.
- Comprei-lhe uma camisola. Fui à loja de animais e ainda se riram na minha cara, mas tu disseste um dinossauro, não disseste?

(fiquei uns minutos a olhar para ela, e depois só confirmei se era mesmo verdade. se tinha ido a uma loja de animais, de animais mesmo, vivos. e tinha.)

Cérebro é fogo que arde sem se ver

- mãe, tu achas que no tempo do Camões já havia drogas?
- mas que raio de pergunta é essa?
- é que ele só podia estar drogado quando escreveu isto...

a miúda, a estudar Camões lírico, e já em fase de começar a fumegar a qualquer instante...

quarta-feira, 4 de março de 2015

Neura

Em modo neura.
Numa só semana (esta), os dois miúdos de molho. Mas intercalados. Primeiro ela. Depois ele. Podiam ter sincronizado a gripe, e tinham-me poupado tanto tempo em casa. É que um dia, até sabe bem. Três dias úteis, colados ao fim de semana, é no mínimo neurótico.
E depois, já não são tão chatos, como no tempo em que se engripavam ainda bebés, e choramingavam dia e noite. Não. Essa fase já lá vai. Agora a choraminguice é substituída pelo oportunismo de ter uma criada sempre à mão "mãe, podes trazer-me um copo de água se faz favor?, mãe chega-me o comando da televisão, mãe tenho frio, traz-me aí uma manta, mãe apetece-me uma torrada, mãe não me apetece esse almoço, podes fazer-me outra coisa? mãe, podes trazer-me lenços de papel?", e quando uma pessoa olha para o termómetro e para aquelas faces rosadas, e se chega para dar mimo, como quando eram bebés a cheirar a febre, ouve "oh mãe, chega-te pra lá, que eu estou a morrer de calor" .


terça-feira, 3 de março de 2015

Cabra

Apesar de não me ter sido concedido o dom de parir filhos anjos, não tenho tido grandes razões de queixa, dessa ingrata que me entrou pela porta dentro, sem aviso prévio, essa cabra: adolescência. Não. Não tenho tido grandes razões de queixa, a comparar com o que vejo em portas alheias. O miúdo, caminha devagar para aquela  adolescência temida, uma resposta sempre pronta, uma ou mais reclamações por dia, a constatação quase diária desta vida injusta.

A miúda, muito mais calma, muito mais pacata, ela sim, a caminhar com passos largos nessa cabra adolescência, pura e dura, salvo numa ou noutra situação, é uma paz d'alma. Mas temo. Temo veementemente que esta acalmia tenha os dias contados. E dei por mim a proferir a frase, outrora deveras utilizada pela minha mãe, coitada, também ela tão fustigada por essa cabra adolescência. "a escola onde tu andas, já eu lá fui professora".

Agora sim, tenho a certeza que terei de ver as cinquentas sombras. Pelo menos, terei a certeza do que ela verá. Sim, porque ter sido apanhada, ela e as suas comparsas, de bilhetes já comprados para o dito filme, depois de lhes ter sido negado tal pedido, e de verem os bilhetes trocados por uma comédia sem o conteúdo apetecível, tenho a certeza de que a curiosidade ficou mais aguçada ainda. E a escola onde ela andou, já eu fui professora. E ainda me parece que foi ontem.
Bolas para a adolescência. Essa cabra. Essa puta.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Apre!

No colégio dos meus miúdos há uma reunião por mês.
Uma, por mês. De falta de informação, que ninguém se queixe.
A dita reunião é feita isoladamente, com cada pai, por hora de chegada. Tento chegar sempre o mais cedo possível,  porque me irritam os paizinhos que fazem sala com o director de turma, fazendo os outros pais desesperarem à espera. No entanto, quando não me é possível, e chego ligeiramente mais tarde, neste período de espera sou presenteada com autênticas cenas de teatro. Ou de novela.
Questiono-me se  muitas  das mães que pariram nas duas últimas décadas, serão dotadas de algum dom especial, porque só pariram filhos anjos. 

Se há algo a correr mal, a culpa é do sistema. Ou do ministério.  Ou da direcção da escola. Ou do coordenador do ciclo. Ou dos professores. Ou dos auxiliares. Ou do porteiro. Ou das funcionárias da secretaria. Ou dos próprios colegas da turma. Ou do colega na carteira ao lado. Ou do colega que se senta atrás. Ou do colega que se senta à frente. Ou dos pais dos colegas todos juntos, que não sabem educar. A culpa, essa desgraçada,  nunca é dos próprios filhos. Que esses são anjos. Só ainda não os artilharam com umas asas nas costas, e uma aureola na cabeça, porque não faz pendant com os nike air , ou com os new balance ultimo modelo. 
APRE!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sermão ou não, eis a questão

Eu coloco o meu ar de bruxa mãe.
Ele, já equipado para o treino, e pronto a sair de casa, coloca o seu ar de calimero.
Eu começo o discurso, num tom baixo, mas duro.
Ele baixa a cabeça e ouve-me.

"estás a baixar as notas, porque estás a descurar o estudo. tens de perceber que as tuas prioridades estão invertidas. primeiro vem a escola, depois vem o futebol"

Ele continua de cabeça baixa.
Eu estranho não ouvir uma justificação, uma reclamação, e decido embalar no discurso.

"como tal, por agora deixas de ir aos treinos dos iniciados, e vais só aos dos infantis. são muitas horas de futebol por semana, que te prejudicam os estudos"

Ele continua de olhos postos nos pés.
Não reage.

"se as notas melhorarem, logo vemos, mas por agora é assim, blá, blá, pardais ao ninho"

Ele mexe ligeiramente o pé direito, olha para mim e diz:

"diz lá se quando eu limpo as minhas chuteiras, elas não ficam memo lindas?..."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Viciado

Quando a Gaja Maria falou neste jogo do facebook, confesso que pensei "bolas, mais não sei quantas notificações diárias, fulano tal convidou-te para jogar trivia crack". Confesso, que pouco adepta de jogos, não fui espreitar. De há uns dias a esta parte, o miúdo tem-me feito as perguntas mais incríveis. Mas todas tão incomuns para o habitual nele (o que é o jantar? posso tomar banho mais logo? posso não tomar banho? posso deixar esta metade de bife? posso deitar-me só mais daqui a bocado ? posso? posso?) que resolvi questionar (até equacionei a hipótese de a namorada lhe estar a fazer um teste de cultura geral).
Era isto.
O miúdo está viciado. O que dentro da jogatana em si, este até me parece bastante didáctico. Gaja Maria, tinhas razão.


Irmãos

Quando era ainda uma gaiata, a sonhar em ser adulta, sonhava ter dois filhos. Um casal. Um casalinho, primeiro o rapaz, depois a rapariga. Não os queria com muita diferença de idades, porque dizia-me a experiência que quanto maior fosse a distancia, pior se dariam. Eu tinha uma irmã quase sete anos mais nova, e se aquilo me dava cabo dos nervos! Quando adulta me tornei, já com a irmã amiga do peito, o sonho concretizou-se, ainda que invertido. Primeiro veio a rapariga, e três anos depois o rapaz. Sei que o facto de serem de sexos diferentes não ajuda, mas a pouca diferença de idades que têm, não fez que com que fossem amigos do peito. Se agora as coisas estão mais calmas, porque (felizmente) os feitios são completamente diferentes, tempos houve em o murro e o pontapé, eram o culminar de muitas discussões. Hoje, a miúda paz d'alma tem a capacidade de ignorar as diversas provocações vindas do irmão, e a "coisa" acaba por fluir apaziguadora.

No dia em que a miúda viajou, já prestes a largá-la no aeroporto (com algumas lágrimas furtivas, aquelas que eu disse que não iria publicamente deixar escapar), liguei para o miúdo e disse-lhe "despede-te lá da tua irmã, que ela está quase a embarcar". Não ouvi o que ele lhe disse, mas ouvi como ela se despediu dele "gosto muito de ti". Devolveu-me o telefone dizendo a sorrir "acho que nunca tinha dito ao mano que gosto muito dele".

Nos dias que se seguiram, a casa esteve demasiado silenciosa. O miúdo fecha-se nos seus entretens, e como habitualmente, tudo lhe é tirado a saca rolhas. Como correu o dia? Receberam algum teste? Como correu o teste? Tens fome? Já tomaste banho? Como correu o treino? Tiveste frio? Tens fome? Podes ir por favor tomar banho? O miúdo avisou-me "não queiras que eu seja igual à mana, que te conta todo o seu dia. eu não sou igual a ela". Senti a falta dela, e achei que ele também. A casa estava demasiado silenciosa. "não tens saudades da mana?" olhou-me com espanto. "Não." respondeu-me.

A miúda ia regressar. O miúdo pediu para me acompanhar ao aeroporto. Sinto-o agitado."mãe,  podes comprar pipocas para ver-mos um filme logo, todos juntos?".  Miúda regressa, cheia de histórias para contar. Na mala traz uma bola de futebol da selecção belga.  Miúdo houve todas as suas histórias, radiante com a bola nos pés. Pergunta pelo filme, e pelas pipocas. Aconchegamo-nos no sofá, ele com um balde de pipocas, nós com chocolates belgas. Ela escolhe o filme, ele reclama que já sabe que vai ser uma história de amor, uma seca, por isso é que não gosta de ver filmes connosco. Ela escolhe, ignorando os avisos dele. Um filme de amor. Ele aconchega-se, e resigna-se "só porque chegaste hoje...". Eu, de coração cheio.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A mentira tem perna curta

O meu miúdo, criança muito preocupada com questões da actualidade, perguntava-me no outro dia "oh mãe, nunca mais ouvi falar do ébola. já podemos ficar descansados com isso?".
Disse-lhe que sim (como digo sempre, mesmo quando há motivo para preocupação, mas para que não se preocupe, porque me preocupa que ande sempre preocupado com coisas que muitas vezes não são preocupação para a sua idade).


Espero que ele hoje não veja noticias. 


Souvenirs



Eu achei que lhe iria fazer bem, por diversas razões.
Uma delas seria a gestão financeira.
Pedi-lhe que trouxesse uma lembrança à avó, à tia, ao primo, ao irmão. 
No segundo dia ligou-me:
-oh, mãe, isto o dinheiro voa. Fui ao museu do Tintin. Sabes quem é o Tintin?
-les aventures de Tintin? Sei perfeitamente.
-isso. então, tu queres acreditar que uma t-shirt de três anos, para o primo, custava quarenta euros? quarenta euros! e o miúdo está a crescer. achei um abuso. então estava aqui a pensar que vai tudo corrido a chocolate belga, que é que achas?

acho que sim, que estás a aprender o quanto custa viver...

domingo, 15 de fevereiro de 2015

E tu Rainha, o que fizeste no dia dos namorados?

Namorei a minha casa.
A gaja há uns dias que andava a pedir mimo. Principalmente, desde que a nossa dona Lena não veio trabalhar esta semana. Ignorei estas chamadas de atenção mesmo à espera de sábado. É que o dia avizinhava-se livre. A miúda na Bélgica, o miúdo com o pai. De modo que a mimei até ao tutano. Aquilo foi detergente para tudo e mais alguma coisa, foi festinhas de paninho do pó, foi aspirador, foi esfregona, foi tudo a que a dita tinha direito. E eu fiquei feliz com este namoro, que o masoquismo está na moda, e eu sempre fui uma pessoa moderna. 


São e salvo

O bicho não morreu, nem tão pouco se gregoriou, e um bem haja a todos os santinhos, também não houve caganeira ( o que eu temi por isto). Não fui com ele ao veterinário, chamem-me negligente, desnaturada e afins, mas andei demasiado ocupada nos últimos preparativos para enfiar a minha filha num avião, sem mim.  Estive no entanto mais ou menos atenta, e apesar da prisão de ventre e da falta de apetite, o bicho não apresentava outros sinais de alarme. Entretanto, já defecou e contou-me o ex-rei ( que foi com ele à rua), que foi uma defecação em grande. Gloriosa. Quase ao nível de um pastor alemão. Está a salvo, portanto. (ufa)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Sobredosagem

A farmácia do meu estaminé, está na prateleira mais alta de um dos armários da cozinha. Fruto de um dos muitos cuidados que uma pessoa tinha, quando as crianças eram ainda, e apenas só, crianças. Esta farmácia caseira, anda a pedir há muito, uma organização/arrumação, a que eu não tenho dado a devida atenção, e acerca da qual tenho feito ouvidos olhos de mercador. Analiso apenas  o prazo de validade quando preciso de alguma coisa, e depois empurro a caixa em género tudo ao molho e fé em deus. De modo que aquilo anda a modos que muito desarrumado, ao ponto de ontem alguém ter aberto o armário, e ter caído uma vinheta de omeoprazol para o chão, sem que esse alguém se tenha apercebido (e parece-me que esse alguém até fui eu, mas não me apetece ainda arcar com as culpas em cima do lombo, que não sei ainda, o que daqui poderá advir).
Acontece que quando regressei a casa, constatei que o bicho, o cão, tinha habilmente aberto os compartimentos dos comprimidos, tinha habilmente aberto as cápsulas dos mesmos, e tinha habilmente ingerido todas as bolinhas que as  cápsulas continham, coisa que habilmente lhe deve ter sabido que nem ginjas, concluindo daqui, que o animal habilmente mamou seis omeoprazol enquanto o diabo esfregou um olho (nesta parte já poderei  estar a exagerar, porque afinal de contas, o bicho teve largas horas para fazer este lindo serviço, e nunca saberei ao certo, o tempo real que habilmente usou para tal).
Habilmente agarrei numa vassoura e limpei todos os vestígios do crime, sacudi-lhe as sobras de bolinhas do principio activo que ainda lhe estavam penduradas nas barbas, não fui ler a bula acerca dos efeitos de sobre-dosagem porque coração que não vê, coração que não sente, olhei para ele e achei que estava com um comportamento completamente normal, e dei o assunto por encerrado.
Acontece que desde ontem, que o bicho não obra. Facto que me fez fecha-lo na cozinha, em género "quarentena" porque temo uma súbita diarreia a qualquer instante.
A alguma alma caridosa que por aqui passe, que esteja ligada à farmacêutica, medicina, veterinária, ou afins, me diga se há razões para me preocupar. É que os miúdos nunca me iriam perdoar (apesar de ainda ninguém se ter acusado em relação a tamanho descuido).
O animal é um daqueles cães "a pilhas" com três quilos apenas. Mas é o bicho mais lindo do mundo. Com um estômago/intestino revestido de omeoprazol.  

Já fui à procura da bula, mas não encontrei (quiçá fruto da desorganização inerente)


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vais voar (sem mim)

- mãe, pela primeira vez vou viajar de avião sem ti.
- pois vais, filha. e nem imaginas o que isso me custa...
- mas não vais chorar, pois não?

vou fazer por isso. pelo menos, não à tua frente. que isto de ter fama de ter o saco lacrimal roto, e de chorar por tudo e por nada, já enjoa. vou fazer por controlar as lágrimas, e deixá-las cair no recanto da minha almofada, quando me sentir desasada, preocupada, mas ainda assim feliz, por ti, porque vai correr tudo bem, e tu vais passear, e conhecer duas ou três novas cidades, e sim vai correr tudo bem, estou sempre a acreditar nisso, que vai estar muito frio, mas que te vais agasalhar como te tenho recomendado, que não te vais constipar tão longe, e não vais precisar de usar o cartão europeu de saúde que te fui fazer a correr, não, não vai ser necessário, porque vai correr tudo bem, porque apesar de eu ficar com o coração apertadinho, assim do tamanho de uma ervilha, tu vais estar bem, vai correr tudo bem, e vais portar-te dignamente em casa alheia, e vais fazer a cama a preceito, como te tenho recomendado, e vais ajudar a arrumar a cozinha após as refeições, e vais dizer obrigada e se faz favor como sempre fazes sem que te seja preciso chamar a atenção para tal, e não te vais perder num país estranho, nem vais ser abordada por nenhum desconhecido mal intencionado, não, nada disso vai acontecer, e vai correr tudo bem, e vais estar feliz a cirandar ao frio pelas ruas de bruxelas, e vais usar a camisola térmica e os gorros e os cachecóis que te vou mandar, porque vais constatar que a mãe tem razão, e vão ser necessários, e vais visitar a casa de Anne Frank, e o que eu gostava de ir contigo, porque já te disse que foi a história mais marcante que li na minha adolescência, tinha talvez menos que a tua idade, e tu vais estar bem, e vai correr bem, e vais conhecer o museu Van Gogh, e eu gostava de estar contigo, porque te queria sempre perto, mas sei que precisas de ganhar as tuas asas, e voar, e estou a deixar-te fazê-lo, assim, devagarinho, a custo e a medo, porque o tempo também voa, e voa tão rápido, que não me preparei ainda para voos tão altos, mas tu vais, e eu não vou chorar, não à tua frente, talvez só uma lágrima ou outra no recanto da minha almofada, quando me sentir desasada e preocupada, mas ainda assim feliz, por ti, porque vai tudo correr bem. que vai.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

As 50 sombras sombreiam-me

A amiga da minha miúda afirma convicta "nós vamos ver as cinquenta sombras de grey". Dou uma gargalhada. A minha miúda olha para mim desconfiada. Não articula uma palavra. No que diz respeito a pedidos difíceis, a outra é que se manda para a frente. A minha é mais cautelosa. Digo que aquilo no mínimo deve ser para maiores de dezasseis e que podem tirar daí o cavalinho da chuva. Persistente, responde-me que já estão quase a fazer dezasseis, faltam apenas uns meses. Continuo a rir. Dá-me sempre para rir, quando os pedidos são estapafúrdios.  A minha miúda continua a olhar para mim, desconfiada. Sabe que quando eu gargalho, o caso está mal parado. Diz numa voz quase sumida "também gostava de ir ver...". Vergastadas? apetece-me perguntar.
Não li o livro, mas já ouvi muitos comentários. Pergunto-me se saberão no cimo dos seus quase dezasseis anos o que é sadomasoquismo (inocente, eu?), pesquiso na net qual a idade mínima para assistir ao filme e parece-me que será dezoito. Bom argumento, penso. E depois lembro-me dos sites onde se podem ver os filmes sem controle, e penso que a miudagem já sabe muito bem contornar certos "nãos" adultos. E penso, bolas, que vou fecha-la numa redoma até fazer dezoito anos. Ou vinte. Ou trinta. 

Pódio

No inicio do ano escolar miúdo chega a casa e diz que ficou em primeiro lugar no corta mato da turma. Mas que, como eu bem sei, atletismo não é com ele, ele é mesmo é uma pessoa de futebol, e como tal não está a pensar participar no corta mato da escola. Digo-lhe que nem pensar, que a professora é até capaz de se zangar com ele, porque o primeiro lugar exige que ele vá representar da melhor forma a sua turma. 
No dia da prova, miúdo diz-me que vai participar, mas que sabe não vai ganhar e como não é uma pessoa de atletismo, vai por ir, só para a professora não se chatear com ele. Dou um ralhete, digo-lhe que o importante não é ganhar, é participar e acima de tudo dar o seu melhor. Independentemente de ganhar ou não, temos sempre de dar o nosso melhor. Decido ficar na escola, a assistir, e a perceber se se esforçou ou não, que feitiozinho danado.
Miúdo diz-me que é melhor ir-me embora, não gosta cá destas coisas da mãezinha a assistir. Não obedeço, afinal quem manda, ainda sou eu.
Miúdo faz uma prova exemplar, ganha com larga distancia, colegas gritam e aplaudem, sobe ao pódio, traz orgulhoso uma medalha para casa.
Passada a euforia, miúdo diz que não lhe apetece ir ao corta mato do concelho, porque não é uma pessoa de atletismo, é mais de futebol, e já sabe que não vai ganhar. Digo-lhe que nem pensar, que o primeiro lugar exige que ele vá representar da melhor forma o seu colégio.
Miúdo vai, professora diz-lhe que o melhor é partir nos lugares da frente, miúdo diz-lhe que nem pensar, "já viu bem os matulões que estão na frente? empurram-me, fico caído no chão, e sou esmagado a seguir". 
Miúdo termina a prova, liga-me "fiquei em vigésimo sétimo". E isso é bom?, pergunto-lhe. "sim, deviam ser uns cento e tal".
Chega a casa, e anuncia à irmã de peito cheio,o vigésimo sétimo lugar. A irmã, que também já participou, diz-lhe que é excelente, e pergunta quantos participantes eram. "Eram duzentos e tal", diz-lhe ele. No dia seguinte conta ao pai, que em trezentos e tal, ficou em vigésimo sétimo. Solto uma gargalhada, e digo-lhe que se alguém lhe perguntar para a semana, quantos participantes eram, ele dirá uns dois mil, na certa. É que o numero vai aumentando exponencialmente de dia para dia.Diz-me que não, que a professora já lhe confirmou, e eram mesmo trezentos e tal. Tenho atleta. Não é, é de atletismo...