quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Apre!

No colégio dos meus miúdos há uma reunião por mês.
Uma, por mês. De falta de informação, que ninguém se queixe.
A dita reunião é feita isoladamente, com cada pai, por hora de chegada. Tento chegar sempre o mais cedo possível,  porque me irritam os paizinhos que fazem sala com o director de turma, fazendo os outros pais desesperarem à espera. No entanto, quando não me é possível, e chego ligeiramente mais tarde, neste período de espera sou presenteada com autênticas cenas de teatro. Ou de novela.
Questiono-me se  muitas  das mães que pariram nas duas últimas décadas, serão dotadas de algum dom especial, porque só pariram filhos anjos. 

Se há algo a correr mal, a culpa é do sistema. Ou do ministério.  Ou da direcção da escola. Ou do coordenador do ciclo. Ou dos professores. Ou dos auxiliares. Ou do porteiro. Ou das funcionárias da secretaria. Ou dos próprios colegas da turma. Ou do colega na carteira ao lado. Ou do colega que se senta atrás. Ou do colega que se senta à frente. Ou dos pais dos colegas todos juntos, que não sabem educar. A culpa, essa desgraçada,  nunca é dos próprios filhos. Que esses são anjos. Só ainda não os artilharam com umas asas nas costas, e uma aureola na cabeça, porque não faz pendant com os nike air , ou com os new balance ultimo modelo. 
APRE!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sermão ou não, eis a questão

Eu coloco o meu ar de bruxa mãe.
Ele, já equipado para o treino, e pronto a sair de casa, coloca o seu ar de calimero.
Eu começo o discurso, num tom baixo, mas duro.
Ele baixa a cabeça e ouve-me.

"estás a baixar as notas, porque estás a descurar o estudo. tens de perceber que as tuas prioridades estão invertidas. primeiro vem a escola, depois vem o futebol"

Ele continua de cabeça baixa.
Eu estranho não ouvir uma justificação, uma reclamação, e decido embalar no discurso.

"como tal, por agora deixas de ir aos treinos dos iniciados, e vais só aos dos infantis. são muitas horas de futebol por semana, que te prejudicam os estudos"

Ele continua de olhos postos nos pés.
Não reage.

"se as notas melhorarem, logo vemos, mas por agora é assim, blá, blá, pardais ao ninho"

Ele mexe ligeiramente o pé direito, olha para mim e diz:

"diz lá se quando eu limpo as minhas chuteiras, elas não ficam memo lindas?..."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Viciado

Quando a Gaja Maria falou neste jogo do facebook, confesso que pensei "bolas, mais não sei quantas notificações diárias, fulano tal convidou-te para jogar trivia crack". Confesso, que pouco adepta de jogos, não fui espreitar. De há uns dias a esta parte, o miúdo tem-me feito as perguntas mais incríveis. Mas todas tão incomuns para o habitual nele (o que é o jantar? posso tomar banho mais logo? posso não tomar banho? posso deixar esta metade de bife? posso deitar-me só mais daqui a bocado ? posso? posso?) que resolvi questionar (até equacionei a hipótese de a namorada lhe estar a fazer um teste de cultura geral).
Era isto.
O miúdo está viciado. O que dentro da jogatana em si, este até me parece bastante didáctico. Gaja Maria, tinhas razão.


Irmãos

Quando era ainda uma gaiata, a sonhar em ser adulta, sonhava ter dois filhos. Um casal. Um casalinho, primeiro o rapaz, depois a rapariga. Não os queria com muita diferença de idades, porque dizia-me a experiência que quanto maior fosse a distancia, pior se dariam. Eu tinha uma irmã quase sete anos mais nova, e se aquilo me dava cabo dos nervos! Quando adulta me tornei, já com a irmã amiga do peito, o sonho concretizou-se, ainda que invertido. Primeiro veio a rapariga, e três anos depois o rapaz. Sei que o facto de serem de sexos diferentes não ajuda, mas a pouca diferença de idades que têm, não fez que com que fossem amigos do peito. Se agora as coisas estão mais calmas, porque (felizmente) os feitios são completamente diferentes, tempos houve em o murro e o pontapé, eram o culminar de muitas discussões. Hoje, a miúda paz d'alma tem a capacidade de ignorar as diversas provocações vindas do irmão, e a "coisa" acaba por fluir apaziguadora.

No dia em que a miúda viajou, já prestes a largá-la no aeroporto (com algumas lágrimas furtivas, aquelas que eu disse que não iria publicamente deixar escapar), liguei para o miúdo e disse-lhe "despede-te lá da tua irmã, que ela está quase a embarcar". Não ouvi o que ele lhe disse, mas ouvi como ela se despediu dele "gosto muito de ti". Devolveu-me o telefone dizendo a sorrir "acho que nunca tinha dito ao mano que gosto muito dele".

Nos dias que se seguiram, a casa esteve demasiado silenciosa. O miúdo fecha-se nos seus entretens, e como habitualmente, tudo lhe é tirado a saca rolhas. Como correu o dia? Receberam algum teste? Como correu o teste? Tens fome? Já tomaste banho? Como correu o treino? Tiveste frio? Tens fome? Podes ir por favor tomar banho? O miúdo avisou-me "não queiras que eu seja igual à mana, que te conta todo o seu dia. eu não sou igual a ela". Senti a falta dela, e achei que ele também. A casa estava demasiado silenciosa. "não tens saudades da mana?" olhou-me com espanto. "Não." respondeu-me.

A miúda ia regressar. O miúdo pediu para me acompanhar ao aeroporto. Sinto-o agitado."mãe,  podes comprar pipocas para ver-mos um filme logo, todos juntos?".  Miúda regressa, cheia de histórias para contar. Na mala traz uma bola de futebol da selecção belga.  Miúdo houve todas as suas histórias, radiante com a bola nos pés. Pergunta pelo filme, e pelas pipocas. Aconchegamo-nos no sofá, ele com um balde de pipocas, nós com chocolates belgas. Ela escolhe o filme, ele reclama que já sabe que vai ser uma história de amor, uma seca, por isso é que não gosta de ver filmes connosco. Ela escolhe, ignorando os avisos dele. Um filme de amor. Ele aconchega-se, e resigna-se "só porque chegaste hoje...". Eu, de coração cheio.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A mentira tem perna curta

O meu miúdo, criança muito preocupada com questões da actualidade, perguntava-me no outro dia "oh mãe, nunca mais ouvi falar do ébola. já podemos ficar descansados com isso?".
Disse-lhe que sim (como digo sempre, mesmo quando há motivo para preocupação, mas para que não se preocupe, porque me preocupa que ande sempre preocupado com coisas que muitas vezes não são preocupação para a sua idade).


Espero que ele hoje não veja noticias. 


Souvenirs



Eu achei que lhe iria fazer bem, por diversas razões.
Uma delas seria a gestão financeira.
Pedi-lhe que trouxesse uma lembrança à avó, à tia, ao primo, ao irmão. 
No segundo dia ligou-me:
-oh, mãe, isto o dinheiro voa. Fui ao museu do Tintin. Sabes quem é o Tintin?
-les aventures de Tintin? Sei perfeitamente.
-isso. então, tu queres acreditar que uma t-shirt de três anos, para o primo, custava quarenta euros? quarenta euros! e o miúdo está a crescer. achei um abuso. então estava aqui a pensar que vai tudo corrido a chocolate belga, que é que achas?

acho que sim, que estás a aprender o quanto custa viver...

domingo, 15 de fevereiro de 2015

E tu Rainha, o que fizeste no dia dos namorados?

Namorei a minha casa.
A gaja há uns dias que andava a pedir mimo. Principalmente, desde que a nossa dona Lena não veio trabalhar esta semana. Ignorei estas chamadas de atenção mesmo à espera de sábado. É que o dia avizinhava-se livre. A miúda na Bélgica, o miúdo com o pai. De modo que a mimei até ao tutano. Aquilo foi detergente para tudo e mais alguma coisa, foi festinhas de paninho do pó, foi aspirador, foi esfregona, foi tudo a que a dita tinha direito. E eu fiquei feliz com este namoro, que o masoquismo está na moda, e eu sempre fui uma pessoa moderna.