quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O miúdo tem bigode

O meu miúdo é pequeno. Meia leca, mesmo. Sempre foi. "ah, e tal, em que percentil está?" aquela pergunta da praxe, das mães que ostentam com orgulho a curva do crescimento e do peso. Merda, mais o percentil. Deixei de olhar para ele, a partir do momento em que percebi que não havia qualquer problema com a sua glândula do crescimento. Eu cresci tarde, o pai também, o miúdo crescerá a seu tempo. E se não crescer, nem todos podem ficar altos e espadaúdos. E não é por aí que o gato vai às filhoses.
Mas o miúdo é pequeno, e ostenta um bigode que alto lá. Uma penugem cerrada, escura, e a bem dizer horrível. E o miúdo preocupa-se. Porque apesar de ser pequeno, é já um pré adolescente, e há que pentear a franja, um toque de gel para aprumar a questão ("para a próxima podes comprar cera, em vez de gel? é que prefiro"), pele imaculada ainda, nada de acne à vista. Mas o bigode. O raio do bigode. É sacrifica-lo com camadas de cera quente, de quinze em dias, e o gajo não arreda pé. E o miúdo grita, de dor, mas olha para o espelho, e a penugem teima em ficar, e ele pede "vá, vamos tentar mais uma vez". E eu digo, isto com pinça, é capaz de lá ir. E ele, senta-se, e heroicamente aguenta com lágrimas nos olhos, enquanto eu lhe arranco, pelo a pelo. E olha para o espelho. E fica frustrado. "bolas, que ainda não saiu tudo". E ontem, irritado com a questão, disse-me que tinha de haver outra solução. "e a máquina? aquela com que vocês arrancam os pelos das pernas?" . Digo-lhe, que sim. Podemos tentar. E penso "corajoso". E penso "beleza a quanto obrigas". E penso "mas o miúdo já se está a tornar um metro sexual?"  E agarro na máquina. E sem querer, um bocado do lábio prende-se nas lâminas da máquina. E faço-lhe um corte. E penso "bolas, que podia ter cortado o lábio todo ao miúdo". E o miúdo não desiste. E agarra na pinça e diz-me "vá, tira o resto com a pinça. e no fim, tira-me aí esse bocado de sobrancelha, que faz com que eu tenha monosobrancelha. que isso fica horrível". E eu cumpro o pedido. E quando já só se vislumbram meia de dúzia de pelos numa pele vermelha e fustigada, o miúdo dá-se por satisfeito e eu penso "anda passarinho novo na costa. só pode".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Retrospectiva (1)

Olho para trás para o mês que findou.
Passeei na Ericeira com a família, e comemos um arroz de marisco caro (muito caro) e mau. Valeu o passeio.
Assisti a uns quantos jogos do miúdo. Enervei-me com umas quantas faltas que sofreu, e com as dores que trouxe para casa, num joelho, num ombro, numa perna. (este sofrimento, esgota-me)
Fiz quarenta anos no dia que disseram ser o dia mais triste do ano.
Organizei uma festa com karaoke, e cantei sob o olhar envergonhado dos meus filhos.
Soprei as velas sem pedir qualquer desejo.
Esqueci-me de um almoço de aniversário, mas fui relembrada do mesmo, e ainda cheguei a tempo de me redimir.
Fui à missa no dia em que fez quatro anos que a minha avó nos deixou.
Assisti a dois jogos do ex-rei. Partilhei com ele a desilusão de um empate lhe ter aniquilado o sonho de passar a uma fase seguinte. (este sofrimento, esgota-me) 
Voltámos às rotinas de estudo e testes.
Emagreci os dois quilos que engordei na quadra natalícia.
Ainda não deixei de fumar.

Oportunidades

Este fim de semana, ele disse querer ver novamente um jogo do miúdo.
Acordei uma hora mais cedo, acordei o miúdo. "ainda é um bocado cedo", disse-me ele. Disse-lhe que sim, mas que tínhamos de ir buscar o avô. "mas ele agora quer unir-se novamente à família? é que eu nem o conheço, e agora assim de repente já é a segunda vez que quer ver um jogo meu?"
Expliquei-lhe que nunca é tarde para mudar e que lhe devíamos dar essa oportunidade. "eu não me importo nada, só acho estranho".
Antes de sair de casa, resolvi ligar-lhe. "pai, estás pronto? vamos sair agora". Não estava. Estava deitado, ainda. E estava tão bem na cama, e estava tanto frio, que se calhar ficava para outro dia. Disse-lhe que sim, que não havia problema. Para outro dia, então. Olhei para o miúdo, pronto a sair, de mochila às costas. "podes jogar um bocado de playsation se quiseres. só saímos daqui a uma hora, que avô está doente, e não pode ir connosco", menti.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ladex

"o teu primo Luís vai ser operado", diz-me a minha mãe. Ai vai?, pergunto. Parece que vai. Aos olhos. Esta sexta feira. Cá. Em lisboa. E então? pergunto mais uma vez. Não é que me seja indiferente que o meu primo Luís, com quem não falo há anos, seja operado ao olhos. Não. Não me é indiferente, tadinho, não queria estar na pele nos olhos dele. Mas e então? "e então que eles não sabiam o caminho para a clinica, e imagina a quem foram pedir ajuda". A quem? "ao teu pai. imagina tu, ao teu pai". Imaginei. E então? E agora? O meu pai sabe onde é a clinica, é tio do meu primo Luís, pode muito bem ajudar. Mas não. Eu sabia que não era para ficar por aqui. "tive pena dele, coitado, ter de recorrer ao teu pai". E então? Vá diz lá, desembucha, que eu já vi onde queres chegar. Queres que me ofereça para essa tarefa, não é? "pois acho que te ficava bem". Pois que eu estou de bom humor, e sei que ficas contente, e faço por isso. Ligo ao primo Luís. Com quem não falo há anos. Falamos como se nos tivéssemos visto ontem. "então, estás bom? já sei que vais ser operado. aos olhos não é?". Sim, diz-me ele. Parece que um olho está a ficar meio de ladex.  Ok. Não aprofundo a questão. "Queres ajuda no caminho? Posso lá ir contigo e com o meu pai." Ê pá, agradeço-te, diz-me ele.  Pois sim senhora. Que assim seja. Esqueci-me de avisar que não sei onde fica a clinica, que sou péssima em caminhos, e que espero que o meu pai saiba de facto onde fica a dita. Já basta não vir trabalhar para fazer a boa ação da semana. Tudo pelo olho do primo Luís. Não o queremos meio de ladex. Isso é que não.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Erros ortográficos, quem os não dá.

Professores chumbam em exame por erros básicos de português Confundir o "à" com "há" e usar mal o "ç" foram algumas das falhas graves cometidas por docentes reprovados. Entre os avaliados, 20% fizeram cinco ou mais erros ortográficos.

A minha filha tem este ano pela primeira vez filosofia. O professor é rigorosíssimo com os erros ortográficos, e desconta uma percentagem por cada um. Ela viu-se com menos um valor no teste, porque em cada "à" que escreveu colocou o acento ao contrário. E ainda me disse, que não fazia a mínima ideia de que o acento do "a" era grave. Eu considerei o caso grave, tão grave quanto o acento que o acompanha. Mas valeu-lhe a lição para a vida, e tenho a certeza de que jamais se irá esquecer.
 
O meu filho dá erros. Muitos erros. Graves, agudos, e não só de acentuação. Que me deixam possessa, de cabelos em pé. No teste de matemática escreveu por diversas vezes angolo. " O stor não desconta". Numa ficha de história, entre outros, escreveu disce. Fiquei horrorizada, perguntei-lhe o que queria aquilo dizer, e ainda me respondeu em tom de gozo que era uma mistura de conjugação do verbo dizer, com o verbo descer. "mas não faz mal, que o stor não desconta".
 
Para os professores que reprovaram por erros básicos de português, valeu-lhes a lição para a vida, assim como valeu para a minha filha o valor perdido no teste. Assim como valeria para o meu filho, se por cada erro lhe descontassem cinco ou dez por cento na nota final e visse as notas baixarem drasticamente. Seria remédio quase santo. Tenho a certeza.

Boa ação

Hoje uma ex professora do meu filho veio ter comigo e disse-me que estava muito orgulhosa do meu menino, porque soube que ele encontrou quarenta euros dentro da sala de aula, quando já não havia alunos, e que entregou o dinheiro à coordenadora, que por sua vez descobriu o respetivo dono do dinheiro. E disse-me "só podia vir de um menino bem formado como ele".  Eu senti-me lisonjeada nesse momento, pelas palavras, e pensei que ouvi a história dos quarenta euros pela boca de outra mãe, que o meu filho não me contou nada, e que eu nada lhe disse relativamente a isto. Porque achei natural a atitude, desvalorizei o assunto e no momento, a única coisa que me ocorreu foi "quem é que leva quarenta euros para a escola?". Hoje, depois de ouvir o elogio refleti sobre o assunto. Tenho de elogiar a conduta, que quando se erra repreende-se, quando se faz o certo, sabe bem ouvi-lo.

meu rico filho, coisa mai boa da mãe

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pimba

Fazer anos a uma segunda feira, significa chegar ao fim de semana com a sensação de que já não vale a pena festejar coisa nenhuma. Uma pessoa até já se esqueceu que fez anos. Mas, quarenta, são quarenta, e assim meio em cima do joelho, lá organizei um jantar com aqueles que me apetecia que realmente estivessem presentes.
O restaurante estava praticamente por nossa conta, e contratei  karaoke.
Para quem não estava nada virada a festejos, foi talvez o jantar de aniversário mais divertido que já tive. E o mais pimba. 

O meu miúdo, que sempre foi muito esperto em apanhar o fraco dos mais velhos, sabe que o momento ideal para me pedir qualquer coisa, é num destes momentos, em que eu estou bem disposta e animada. Assim, foi nesse preciso momento que decidiu pedir-me novamente a playstation 4. Disse-lhe que ia pensar no assunto, enquanto me dirigia para o microfone, para abrir a pista das cantorias. E foi sob os olhinhos dele, atónitos e apavorados, que cantei a alto e bom som, como se amanhã não houvesse, o "bate bate coração, louco louco de ilusão" do Carlos Paião. Quando terminei, achei que o miúdo me ia desfalecer nos braços. E sussurrou-me apenas "depois desta vergonha, acho que me deves mesmo comprar a playstation 4". 

Tenho quarenta, meu filho. Quarenta anos. E acabei de soltar o pimba que há em mim.