quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Para não esquecer

Esta semana tivemos o dia pela erradicação da violência contra a mulheres.
E eu lembro-me. Não me lembro como se fosse ontem, porque me parece que foi há uma eternidade atrás (e foi), mas há coisas que não se esquecem, e ficam guardadas no recôndito da tua memória, para que saibas e te recordes que as viveste, que aconteceram, que não vais permitir que de novo aconteçam.
Começou por ser um namoro bonito, ele pouco mais novo, eu maior de idade. Eu gostava dele, ele gostava muito de mim. Mas gostava muito, tanto, que esse gostar se transformou numa obsessão doentia, misturada com ciúmes doentios, a acrescentar atitudes mais doentias ainda.
A primeira vez que me bateu, respondi na mesma moeda. Eu, a miúda espevitada, senhora do meu nariz, era só o que faltava, alguém me encostar a mão. Terminei tudo, não admitia, sabia como era, sentia que nunca mais, nada iria ser como antes. Aquela atitude tinha quebrado toda e qualquer confiança que pudesse ter, naquele que era o meu namorado. O respeito tinha terminado ali, de parte a parte. Mas ele gostava muito de mim. Mas gostava muito, tanto, que chorou baba e ranho, implorou contra a minha decisão, jurou que nunca, jamais, voltaria a ter uma atitude semelhante. E eu, julgo que de alguma forma ciente de que aquela jura poderia não ser cumprida, ainda assim, voltei atrás.
Não muito tempo depois, e desta vez em publico, aconteceu novamente. De uma forma mais brusca, mais violenta, de modo a que eu, a miúda espevitada, senhora do meu nariz, me tenha visto naquele momento com o dito no chão, o orgulho, a auto estima, e as forças quase inexistentes. Queres apresentar queixa, perguntaram-me. Não queria, não queria relembrar o momento, não queria assumir e tornar publico que tinha errado, principalmente perante a minha mãe. Eu, a miúda espevitada, senhora do meu nariz, deixar que me agredissem, física e psicologicamente, era algo que eu não queria jamais transparecer. A mãe soube, os amigos souberam, eu sozinha percebi que o erro não era meu e disse o basta. Percebi que ele não gostava muito de mim. Que não gostava muito, tanto, porque gostar não é assim. Percebi que a vivencia que tinha tido, assistindo a atos semelhantes vindos do pai e do irmão, não lhe davam o direito de ser igual. E eu não podia, não queria ser mais uma vitima daquela família insana.
Fui perseguida nos sete meses seguintes. Presenciei cenas de choro, pedidos de desculpa infinitos, alternados com revolta e ameaças. Não cedi, e qual senhora do meu nariz, muitas vezes envergando uma falsa máscara, mostrava não ter medo. E as perseguições foram escasseando, os pedidos de desculpa deixaram de existir, de quando em vez nova ameaça. E eu rapidamente me reergui, coloquei o acontecimento no passado, continuei a viver o meu presente.  
Mas muito de vez em quando, lembro-me. Não como se fosse ontem, porque me parece que foi há uma eternidade atrás (e foi), mas há coisas que não se esquecem.  Para que saibas e te recordes que as viveste, que aconteceram, que não vais permitir que de novo aconteçam.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

um quadradão (machista) do pior #3

Já tinha dito aqui ( e aqui, e ainda aqui ), que o meu miúdo é um quadradão do pior.
Também já tinha anunciado por aqui que o miúdo está apaixonado, e passa a vida a trocar mensagens com aquela que lhe tomou de assalto o coração.
Enquanto trocava mensagens freneticamente (com ela, suponho), pergunta-me:
-oh mãe, tu achas que eu sou machista? - nunca pensei que este dia chegasse tão cedo, confesso, e soltei um "claramente" convicto machista é até bem mais adequado do que quadradão, bendita miúda que lhe vai abrir os olhos .
-e uma pessoa pode ser presa por isso?

(e eu parva, disse que não...)

Assim assim

Há os dias bons, os dias maus, os dias assim assim.
Não sei em que categoria enquadre o dia de ontem.
Uma manhã boa, uma tarde assim assim, uma noite má.
Depois de uma manhã boa, à tarde oiço dizer coisas menos boas de um filho, chego a casa, já quase sem forças para repetir o sermão que tem de ser dado (impreterivelmente), olho para o relógio, acelero o jantar que a hora da caminhada aproxima-se (e já que me dizem que caminhar é bom para o coxis, vamos a isso), faço um bacalhau com natas em meia hora, com direito a batata  frita verdadeira e tudo, enfio o fato treino, saio para a rua, acompanhada pela vizinha, pelo cão dela e pelo meu. Trabalhar a musculatura e o esqueleto a cães e seus donos, é a palavra de ordem. O frio gela a face, o coxis aquece, as dores diminuem, acelera-se o passo.
O percurso é diferente do habitual, encaminhado pela vizinha, cortamos caminho pelo campo de golfe. Tento olhar para a paisagem, mas está escuro que nem breu e a lanterna  fixa na cabeça da vizinha não é suficiente para grandes iluminações. Aparecem dois cães, sozinhos, de grande porte. A vizinha conhece-os, sabe onde vivem, devem ter fugido, diz-me.
O meu cão, um pingente canino com menos de três kilos, não gosta dos forasteiros, rosna, ladra, qual cão de guarda, atira-se ao maior. Numa questão de segundos, vejo a vizinha no chão, numa mão a trela presa à cabeça do meu cão, na outra ponta o cão grande com o meu cão abocanhado. E o que é que uma pessoa faz perante um cenário destes? Grita: "ai, que me vão matar o cão!". Não sei se foi o meu grito que surtiu o efeito desejado (palpita-me que não), o cão grande largou o meu cão pequeno, e com ele ao colo e sem luz (a lanterna perdeu-se no meio do aparato), voltámos a casa para avaliar os estragos. Cão de urgência no veterinário, quatro agrafes na barriga, injeções e medicação prescrita, cento e vinte euros largados. Sinto-me como se eu própria tivesse sido abocanhada por um cão, dói-me o corpo, parece que levei uma tareia. Penso,  podia ter sido pior. Assim, talvez tenha sido só... assim assim. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

discurso/ladainha/recomendação

A chegada das avaliações intercalares a casa, é sempre um momento de algum suspense. Uma pessoa anseia pelas boas novas, por ver melhorias, mas no fundo, no fundo, sabe que o discurso se vai repetir, a mesma ladainha, as mesmas recomendações.
Em todas as disciplinas a queixa se repete, distração é a palavra de ordem.
Ao fim de uns anos, uma pessoa começa a habituar-se ao mesmo registo, o discurso começa a ser menos veemente, a ladainha repetida com menos convicção, as recomendações de ver melhorias já amanhã, e sempre.
A preocupação constante de à distração não ver acumulada a cruz na falta de educação, e menos mal, uma pessoa pensa.
Depois lê a nota em rodapé. Respeitar as regras em sala de aula, como por exemplo, respeitar a sua vez no ato de participar. E notas em rodapé é algo a que uma pessoa não está habituada, e então o discurso alonga-se veementemente, a ladainha altera-se ligeiramente, as recomendações redobram-se. E uma pessoa percebe que o miúdo pode ser distraído, mas ganha a olhos vistos poder de argumentação, que também sabe discursar com alguma veemência, que a sua ladainha defesa é cada vez mais minuciosa, e que isto afinal de contas na vida, é-se preso por ter cão e preso por não ter. Se uma pessoa participa é porque participa, se uma pessoa não participa é porque não participa, e afinal de contas, o que é importante, são as notas, e essas, não foram más (pois não?). Uma pessoa consegue ouvir atónita todo o discurso e ladainha defesa apresentada, e reformula novo discurso, nova ladainha, novas recomendações. E espera por melhorias (e tem dúvidas se distração é um mal genético).

Não me vergo

Cinco dias volvidos, àquela a que denominaram "lesão" no coxis, continuo a sofrer à séria, e começo a desconfiar de um diagnóstico mal feito. Pouco importa, já que o local lesado, fraturado ou não, não tem outro remédio se não esperar, camuflar a dor com muitos analgésicos e muitos  anti-inflamatórios, rezar para que os mesmos não provoquem uma úlcera no estômago, para além do desarranjo intestinal já provocado e pedem-me repouso. Muito repouso.
Assim, tenho repousado durante a noite, aquele que é possível, porque as dores não me deixam fazer um sono descansado e tranquilo. Tenho a sorte de ter um ex-rei que todas as manhãs me vem preparar almoço e lanches das crias, me dá um jeito na casa, me transporta até ao meu local de trabalho, onde repouso, a trabalhar. Tenho a sorte de ter amigas que me providenciam o regresso das crias a casa, a quem tenho de alimentar, e por isso repouso em frente ao fogão. Depois sei que a tulha da roupa deve estar já atulhada, faço uma máquina, tenho a sorte de ter uma mãe que vem dar uma ajuda, e uma irmã que se oferece para ajudar, embora eu diga a todos que isto está melhor. Não está. Mas repouso absoluto, é algo a que não me posso dar ao luxo, a que não me quero dar ao luxo, não é o raio de um coxis que nem falta nos faz, que me vai vergar (é que vergar, é mesmo o movimento que não consigo de todo, fazer).

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Ridículo (e doloroso)

E quando uma pessoa está há três dias sem se mexer, três noites sem dormir, com dores no coxis de levar às lágrimas, aos "ais" "uis" e outros gemidos que tais. E uma pessoa chega ao hospital, sabendo que fraturado ou não, é indiferente, que não há conserto possível para tal, mas só quer uma injeção na veia para acalmar o sofrimento, e o médico verificando a agonia, lhe pergunta "então como é que caiu?" e uma pessoa fica na dúvida se mente descaradamente, e diz que caiu na banheira, ou na rua, ou escorregou no chão molhado da cozinha, ou conta a verdade, nua e crua, e explica ridiculamente que o seu filho escondeu o Ipad entre os dois assentos  do sofá, e que uma pessoa se sentou descontraidamente e com alguma força em cima do mesmo, com uma pontaria certeira, que lhe deu cabo do coxis, desta maneira. E uma pessoa conta a verdade, mesmo sabendo o quão ridícula e difícil de acreditar é , e uma pessoa encharca-se em analgésicos e anti-inflamatórios e outros medicamentos que tais, enquanto ouve o filho dizer que foi preciso muito azar, porque ultimamente tem sido aquele, o esconderijo do seu Ipad. E uma pessoa fica na dúvida se chora, se ri, se dá uns açoites no miúdo, ou se felicita a Apple. É que o material é bom. Rijo e resistente. O meu coxis, acabou de constatar isso.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Para ti J. que fazes anos hoje

Caríssimo J, que faz aninhos hoje, 
Uma vez que não irei ter tempo de comprar-lhe nada, como oferenda de aniversário, dado que passa já das quatro da tarde, e sei o quão entupida fica esta avenida, a partir desta hora, ainda mais a uma sexta feira, venho por este meio, deixar uma informação que achei útil, para sua excelência. Respira. Que esta frase foi longa, apesar de bem calculadas as virgulas (não as calculei ao milímetro, pu-las assim, conforme me foi dando na real gana, mas é capaz de não terem ficado mal de todo).
Respiraste ? Não tenhas nenhum ataque, muito menos no dia de hoje, que o pessoal quer comer o arroz de pato. Aquele que não é igual ao meu (bolas, que eu faço aquilo bem, assim com'ássim, ainda faço algumas pequenas coisas bem, na real p-u-t-a da minha vida) mas que a tua mulher diz que eu hei-de dar a mão à palmatória, que não sendo igual, é igualmente bom. Vou preparadíssima para dar as duas mãozinhas, se preciso for. As duas palmas, das mãos, estendidas, que às vezes (muitas vezes) teimamos uma com a outra, num claro sinal de teimosia crónica (logo, incurável), mas que, quando revejo razão do lado contrário, às vezes a custo, não me inibo de as estender (as palmas. das mãos. ou de uma só, se me custar um bocadinho mais. dar a mão. à palmatória - se é que me fiz entender, que isto a escrita às vezes sai-me assim fluida, e por vezes com pouco nexo).
 
Pronto, estas balelas todas, aqui de enfiada, para dizer apenas que não terei tempo de te comprar nada, mas não fica no esquecimento. No entanto, enquanto fazia tempo para receber uma porra de um email, que não há meio de chegar, e eu quero bazar daqui, antes que apanhe cinco quilómetros de transito parado, e gaste dez ou quinze litradas de gasóleo de uma assentada só, andei a passear-me pelo facebook. Essa ferramenta que vocês não têm, e não sabem o que perdem, o que se aprende por ali, o que se vê, o que se lê, enfim, a magnificência da coisa é tal, que acabei de descobrir a cura para o nosso mal comum (bem, o meu, assim como a teimosia, é crónico, mas pode ajudar, e eu, que cuidada sou com as minhas questões de saúde, estás a ver , vou já seguir todos os passos à risca.
Assim, aqui fica o link para  a cura do nosso mal:
 
 
Este é o meu presente de hoje, para ti. E não digas que vais daqui.
Sei que o discurso está meio disforme, e no meio deteto um erro ortográfico, que a porra do dicionário automático teima em sublinhar a vermelho, mas o estupido (do dicionário) não me dá outra opção que eu considere válida. Assim, "HEI-DE" não se escreve assim? Atão, porra, é como? é tudo junto? Perdoai-me a ignorância, mas vou recorrer ao dicionário em papel, mais logo. Que deve estar ultrapassado. Depois do acordo ortográfico. E uma pessoa anda assim, sempre às aranhas. Sem saber às quantas anda, no que às letras diz respeito. Se calhar vou publicar na minha página do facebook, a questão. Que isto quem tem face, tem tudo. Até a solução para a sinusite.
 
Basta. Vou-me embora. O arroz, que até vai saber a pato, espera-me. Assim como o gin. Estou a precisar, hoje. E de repente até me ocorreu a ideia, de fazer esta mézinha, esta receita para a sinusite, com gin. Era capaz de surtir efeito. E deixar-me inebriada para o resta da vida. E isso, parece-me uma excelente ideia, neste momento.
 
Um beijo de parabéns, pelos anos que fazes, pelos anos que tens feito a minha amiga feliz, por seres quem és. Vais no bom caminho. Venham mais 46 iguais (pronto, eu sei que não é possível em todos os aspetos, mas para isso, pode ser que eu arranje a receita no facebook, para o ano) !
 
Até já.
(este texto foi escrito ao abrigo de uma pressa de sair daqui para fora, logo, não foi lido e relido, podendo ter outros erros ortográficos, ou não ortográficos, ou coisas que tais)